A droga boa

A última vez que tinha visto tanta gente junta assim, apenas para ouvir outras falar, foi na missa. E foi já há bastante tempo.

Congressos científicos não contam porque é gente a falar da vida em partes separadas. E pessoas a rezar também não, porque é gente a falar de coisas que nunca viu e que não compreende. Isto era diferente.

Olhei melhor, “destorci-me” na cadeira, escutei à frente. Mas não eram nem padres, nem curas, nem sacerdotes, aqueles senhores de voz baixinha e conversa fácil, eram escritores. Falavam que o pensamento mágico existe e que a ciência vai fazer com que pelo menos um de nós – dos que estamos a ler este texto – vai viver 300 anos, porque a ciência nos permite trocar todos os órgãos do corpo. Menos o cérebro.

obidos_folioQue quem trocar de cérebro fica novinho em folha, mas não fica ele. Nem ela. Vai ficar outro. Será que interessa? Eu não estou interessado.

Mas será que isto que escrevo é mesmo assim ou eu fumei escrevendo? Ou será que bebi na ponta da caneta sem dar conta? Desta vez não, que estou mais sóbrio que um anjinho papudo. Só uma “ansiazinha”…

Mas sei bem o que é escrever de caipirinha ao pôr do sol. Ou “poemar” um copo de vinho no ouvido do amor. É bem diferente! Ah!… e quase sempre bem melhor.

O Mia Couto e o Sidarta Ribeiro, homens escritores, oficiadores deste então, na memória das suas histórias aditivas ­— também as havia — fizeram sempre ecoar na sala a devoção simples do talento. Um talento firme e fresco que tanto vem da longa estepe moçambicana como do laboratório americano de luzes azuis qual “ciésai” de ratinho brancos. Um talento que amara da mesma forma e com o mesmo dom numa página linda aos olhos dos leitores.

 

Diário de Coimbra de 28 outubro