A triste gramática da tropa

As conclusões do inquérito de Tancos não são só cómicas, são sobretudo absurdas. Qualquer oficial de informações se sentiria ofendido, qualquer especialista em intelligence se rebolaria às gargalhadas, e qualquer cidadão se sentiria insultado pelo que vem descrito no relatório sobre o desaparecimento das armas de guerra do paiol.

Mesmo percebendo que o ministro da Defesa não tem as qualidades necessárias para o cargo, com informações destas qualquer um faz um papel de idiota. E nem é preciso fazer um desenho.

Quando não se consegue explicar um buraco na rede, não adianta acenar grupos criminosos da Córsega, dos Balcãs ou do Estado Islâmico. Tudo soa a um disparate pegado.

O que importa é perceber porque é que isto aconteceu. E a resposta é fácil. Entre os militares onde antes se lia honra, agora lê-se descrença. Onde só havia brio, agora há só conveniência. Hoje, lei e grei estão tão distantes uma da outra como um reator está dum carrinho de mão.

Em democracia, o poder político tem de comandar a tropa, mas sem permitir que ela se descaracterize como aconteceu no nosso país. Ao longo destas décadas, depois do 25 de Abril, os políticos, talvez porque viram nos militares os seus verdadeiros adversários, encetaram uma estratégia de empobrecimento das Forças Armadas que tem corolário o episódio de Tancos. A tropa já não é o melhor da nação. É apenas um espelho dela.

O episódio de Tancos é apenas culpa dos políticos. Não exclusivamente deste Governo, mas de todos os antecedentes, e hoje simbolizado pelo ministro mais incompetente que a defesa da nação já teve.
Hoje a tropa nacional pouco vale. Tirando as bolsas das tropas especiais – na Marinha, os fuzileiros; no Exército, os comandos os paraquedistas e as operações especiais – o que sobra é irrelevante.
Quando o mau exemplo vem de cima pouco há a fazer. Com o passar do tempo os políticos transformaram os militares em funcionários públicos. Agora, em vez de heróis com valores, existem soldados que são o espelho de quem os governa. Quando as Forças Armadas, que seriam sempre o último reduto da consciência de uma nação, são o grau zero da impunidade, algo de muito sério está errado. Um militar vive das normas, essa é a sua gramática e nela não podem existir ambiguidades ou inconsistências.

E o mais estranho é ainda ninguém ter dito isto.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 31 de dezembro de 2017