Amo-te Tinder

Antigamente as relações amorosas construíam-se de varanda em varanda, de bailarico em bailarico, com cautela e pedacinhos de vergonha. Cada avanço, por mais tímido que fosse, carecia de juras de amor e o primeiro beijo era quase um casamento.

Mais tarde quando a sociedade deixou de ser tão puritana, as relações mudaram-se para as plateias do cinema e do teatro. Foi a época dos clássicos, que nos fizeram sonhar com um beijo em “Casablanca” nos braços de Ingrid Bergman, ou com a beleza imaculada Audrey Hepburn em “A princesa e o Plebeu”. Era só fechar os olhos.

E agora? tudo mudou? Na era das novas tecnologias onde tudo é rápido e ninguém sabe esperar, será que ainda há lugar ao romance sério e lindo, para a paixão e o desvelo?

Os mais velhos dizem que agora é tudo uma pouca-vergonha, que já não há valores nem amor. Mas apenas dizem isso porque são infoexcluídos. Qualquer “cota” solitário está apenas a um download e um smartphone de distância de encontrar de novo a felicidade.

Foi um jovem empresário que primeiro percebeu a oportunidade. Sean Rad, que não tinha tempo para andar de varanda em varanda, teve uma ideia. Chamou-lhe Tinder e reinventou geografia dos amores. Então a possibilidade de encontrar a alma gémea elevou-se à maior potência. Com uma boa história e meia dúzia de cliques podíamos conversar num só dia, com mais pessoas que os nossos pais na vida inteira.

O Tinder põe o amor à distância de um clique. Aumenta o universo das possibilidades, poupa tempo e enganos. Não substitui o namoro, porque esse continuará a precisar de tempo, mãos dadas e caminhadas na praia, mas mudou para sempre a fórmula da atração.

Só se eu gosto e ela gosta, é que podemos conversar. “It”s a match!”. Gostamos um do outro! A menina dança? Uma conversa, galanteios e, se a coisa avança, combina-se um café e eis-nos de volta ao mundo real. Dos beijos e dos abraços.

Se foi a tecnologia que descobriu os medicamentos que nos fazem viver muitos mais anos, só podia ser ela a descobrir a fórmula de nos apaixonarmos até à eternidade.

Afinal, nos dias de hoje, com que idade mesmo é que se é velho?


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 23 de abril de 2017