2018. O ano de Portugal

Foi em 1418, depois de uma tempestade e muitos dias à deriva em alto mar, que alguém gritou “Terra à Vista”. Do cesto da gávea avistava-se uma pequena ilha a que logo chamaram de Porto Seguro. Um Porto Santo que salvou a tripulação de Gonçalves Zarco de um destino fatídico. Faz amanhã seis séculos.

Mais tarde, na primavera de 1498, com a primeira globalização que o mundo conheceu já em marcha, Portugal era o percussor de uma nova ordem mundial. Quando, logo à noite, baterem as doze badaladas, tudo pode começar de novo.

A história conspira a nosso favor. No final do século XV, a Europa estava, como está hoje, mergulhada em grandes problemas. Sofria com perturbações da economia internacional, mudanças climáticas, balcanização, antissemitismo, agitação social e conflitos violentos entre facções radicais da cristandade e do islamismo. Como agora, a Europa podia desintegrar-se.

Foi neste momento crítico da história, disse-o o historiador Ferdinand Braudel, que Portugal desempenhou “o papel principal na transformação cósmica da Europa”. O pequeno país à beira mar plantado, então com uma população de pouco mais de 1 milhão de habitantes, tornou-se “o detonador de uma explosão que mudou todo o mundo à sua volta”.

Reunindo uma poderosa combinação de sinergias inovadoras: em ecologia, tecnologia, organização empresarial e intercâmbio cultural, Portugal iniciou uma verdadeira revolução universal. Ao unir esses fatores de uma maneira até então sem precedentes, desencadeou uma mudança, repentina e revolucionária, que definiu a Europa e o mundo como um todo, criando um novo paradigma e iniciando uma nova era.

Hoje, cinco séculos depois, Portugal, reúne, como nenhum outro país, as condições necessárias para revolucionar de novo o mundo. Um potencial que habita nas raízes desta primeira grande transição, nas novas possibilidades que essa transformação disponibilizou e na geografia ímpar da língua portuguesa.

Ao reformular as “regras do jogo”, a nossa pequena nação revolucionou a economia, as práticas comerciais e a tecnologia em todo o mundo. Com coragem e inovação mudou para sempre, o comércio internacional e as relações de poder globais e passou, em menos de um século, de uma das nações mais pobres da Europa, a uma das mais ricas do mundo.

Escrevo estas linhas estando em El Jadida, antiga Mazagão, em Marrocos. Aqui encontrarei o ano novo. A olhar o Atlântico, por onde os habitantes da última possessão portuguesa do Norte de África saíram rumo ao Brasil em 1768, percebo que todas as condições se reúnem de novo. Portugal irá novamente, economicamente e espiritualmente, comandar o futuro.

Como escreveu Pessoa. É hora.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 31 de dezembro de 2017