O que prende António Costa?

Será que António Costa se fez eleger líder dos socialistas sem ter a certeza do que queria para o PS e para a sua vida? Ou aconteceu alguma coisa pelo caminho?

É que, quando se tenta compreender como foi possível transformar uma “sebastiânica” vaga de fundo – que o fazia solução para tudo – numa dispersa coluna de fumo – onde se não conseguem ler sinais de nada – parece que alguma coisa não bate certo.

A sua vitória nas primárias parecia uma ideia tão boa que até conseguiu que muitos independentes se dessem ao trabalho de ir votar numas eleições que não mudavam coisa nenhuma. O que é um feito absolutamente notável se pensarmos no nível de participação política dos portugueses. As primárias foram uma “lufada de ar fresco” e fizeram de António Costa uma causa a que se tinha vontade de aderir.

Faltava agora conhecer as ideias do PM anunciado. E foi aí que a coisa começou a falhar.

Se em política as vagas de fundo são fenómenos emocionais – conseguidos na mesma lógica das campanhas de marketing – já manter o élan, para atingir o poder, exige conhecer e compreender os anseios das pessoas, preparar discursos simples e dirigi-los ao coração daqueles que queremos conquistar no ato do voto. Esses discursos carecem de um condimento racional: serem, ou pelo menos parecerem, boas ideias. E em política nem sequer é preciso ser muito conhecedor para as arranjar. Basta usar os recursos disponíveis nos partidos.

Um exemplo: antes de se fazer eleger primeiro-ministro Sílvio Berlusconi (que só serve de modelo para isto que vou escrever, Deus nos livre!) fez um estudo em que quis saber quais eram os principais problemas que os italianos queriam ver resolvidos. De todos os que o estudo revelou escolheu os três principais e repetiu-os até à exaustão sempre sem se desviar. O resultado final é esse que todos sabemos. Três vezes primeiro-ministro. Para mal dos pecados dos italianos a estratégia de comunicação de Berlusconi estava certa.

Então por que é que, nesta altura do campeonato, António Costa ainda não definiu as suas ideias, não as prega aos quatro ventos e não lidera as sondagens de forma inequívoca?

Ninguém sabe. E esse é o mistério que ele tem cada vez menos tempo para esclarecer a seu favor.

Se não o fizer depressa, corre o risco ver o primeiro-ministro que mais sacrifícios impôs aos portugueses desde o 25 de Abril reeleger-se contra toda a lógica.

António Costa tem de se libertar depressa.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 6 de abril de 2015