António “Houdini” Costa

Ela teimava que sim e ele dizia que era uma péssima ideia. Isto de o PS fazer um acordo suicida com os partidos de Esquerda nunca ia correr bem. Eles apenas aceitariam dizer que sim para fazerem os “pê-esses” reféns a seguir. Seria como um filme do Chuck Norris a imitar os couraçados Potemkin nas marés de Eisenstein. Ou, como dizia o Almada, tudo mau gosto, tudo chita a imitar seda.

“Quem perde perde e pronto, está perdido”. Agora, isto? É contranatura. É de mais. Está tudo parado.

Mesmo que os perdedores se apresentem em bicos de pés na cena seguinte, a fazer de conta que ganharam, não vai resultar. Mesmo que até pareça (e seja) constitucional, e racional, e até lógico, e talvez nórdico e muito civilizado e o diabo a sete. Não vai dar. Eu sei, é pena, mas não vai mesmo dar… Mesmo que as intenções até sejam as mais nobres. Mesmo que o arquétipo sustente a ideia e o mito sobressaia e as sombras pareçam coincidir. Mesmo que tudo isto aconteça. O que é do reino das falsas boas ideias nunca presta. Nem interessa nada tentar “justaposicionar” o resto do mundo civilizado à nossa culinária ocasional, porque, aqui, na Lusitânia, o lado esquerdo nas nossas camas é muito diferente dos edredões nórdicos das democracias mais antigas. É mais desconfortável, mais bicudo, mais frio, mais inóspito.

Lá, nas Dinamarcas, as fraturas da política não têm a ver com questões de fundo. São apenas sobre as conjunturas e os pequenos poderes. As parcialidades, as semelhanças. Aqui, em Portugal, entre a Esquerda e a Direita, as diferenças são grandes e sobre a forma de compreender o Mundo. Não são pormenores insignificantes. São coisas de fundo. Respirar? Pulmões ou guelras. Carburar? Álcool ou gasolina. Ficar? Euro ou escudo. Poder? Ajudar ou trair. Pagar? Tudo ou nada. Dívida. Logo se vê? É a verdadeira natureza das coisas.

Se, como tudo leva a crer, o líder dos socialistas levar a sua avante, não vai haver “Ação” (nem socialista) que lhe valha a curto prazo. Será ex-líder antes que chegue o verão. Depois de amanhã, quando o mais que certo chumbo do programa do Governo acontecer, António Costa começará a sua “desepopeia” anunciada. Não ficará para a história como o homem que sabia de menos, porque a história não memoriza esses erros, e também ninguém o lembrará como aquele que acreditou de mais no impossível, porque todos (menos ele?) sabiam que isso não era verdade e nunca agiram como tal.

A verdade do Evangelho, di-la um amigo meu, que escreve livros sobre as artes da política, quando afirma: “Não compreendo como é que o homem que perde as eleições, que até o Rato Mickey ganhava, se põe em bicos de pés, em vez de sair de cena”.

Ela também dizia que ele era um cético, um bota de elástico. Incapaz de sonhar. Um fascista. Um perigoso radical de direita. Não compreendia a mudança. Um ultraliberal do piorio.

Ela dizia-o, porque gostava dele e porque, simultaneamente, não o conseguia fazer acreditar nos mundos impossíveis com que sonhava. Ela acreditava na solução à Esquerda com a mesma determinação com que odiava o sistema. Com a mesma vontade com que desejava instrumentalizá-lo. Falava da camarada Marisa, da camarada Mariana, das camaradas todas, como se elas fossem imateriais e impossíveis. Quase, a “contrario sensu”, como se fossem santas.

Fábulas à parte, o que é certo é que nas últimas semanas vivemos todos num país de faz de conta. Sem ação e a cumprir calendário. E qualquer regra básica da gestão nos diz que pior do que um mau cenário, é não haver programa nenhum

Agora é que vai ser, diz ela.

Mas será que vai isso dar, pergunta ele.

Ainda hoje é segunda-feira. E amanhã, terça. E depois, quarta e quinta e Cavaco e sábado e domingo.

A ver vamos. Como diz o cego.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 9 de novembro de 2015