O poder das ideias

António Costa está a complicar. Não consegue transmitir às pessoas ideias novas de forma simples. E aquelas que parecem simples não são transformadoras.

Se continuar assim as pessoas vão ficar sem saber o que ele pensa fazer se for primeiro-ministro e não vão votar nele. Os portugueses nunca trocam o certo pelo incerto. Se nunca o fizeram antes por que motivo haveriam de o fazer agora?

Os portugueses são estruturalmente conservadores e acomodados e o nosso passado recente fala por si. Tolerámos em silêncio uma ditadura durante quase meio século, só se fez uma revolução (e muito tranquila) estando a ditadura a cair de podre e depois de mais de uma década de sofrimento com a guerra em África. Já em democracia, reelegeram-se sempre os presidentes da República – e quase sempre os primeiros-ministros – para segundos mandatos, independentemente do seu desempenho. Os portugueses são avessos à mudança. São tão conservadores que preferem continuar a sofrer das dores que já conhecem, mesmo que se agravem, a experimentar uma técnica desconhecida para curar as suas doenças. Se não lhes for demonstrado por A+B que a mudança será mesmo para melhor vão preferir que tudo continue na mesma. Mesmo que lhes doa mais.

Até agora as coisas que António Costa disse de forma relativamente simples – repor os feriados, as 35 horas de trabalho semanais ou baixar o IVA da restauração para 13% – além de não serem transformadoras parecem representar, o que é ainda mais perigoso, uma espécie de regresso ao passado, àquele passado que obrigou os portugueses a todos os sacrifícios recentes. Apesar de serem coisas aparentemente boas, estas ideias dificilmente vão encontrar abrigo no coração das pessoas. Porque já ninguém acredita que se possa regressar ao tempo das vacas gordas apenas com um estalar de dedos. Já ninguém acredita no crédito fácil e pouco trabalho, em emprego certo e futuro garantido.

António Costa precisa de dizer aos portugueses como vai transformar Portugal. Voltar atrás não é, em circunstância alguma, uma boa ideia. Mesmo que o passado tenha sido ótimo. Não é natural e, por isso, não mobiliza ninguém. Descobrir o caminho para o passado não presta. É preciso dizer como vai ser o futuro.

Para que os eleitores portugueses o escolham a ele em vez de a Pedro Passos Coelho é preciso que o líder do PS encontre rapidamente a formulação para a sua ideia para Portugal.

Uma boa ideia que tem de ser simples, transformadora e representar uma causa a que todos queiram aderir. Simples porque tem de poder ser compreendida e simultaneamente respeitada por todos, independentemente do seu nível cultural ou conhecimento da realidade. Transformadora porque tem de revelar imediatamente e com toda a clareza o que vai mudar, ainda antes de ser posta em prática. Deve, por fim, ser objeto de desejo porque só assim encontrará imediata adesão no coração das pessoas.

Os conservadores ingleses que agora ganharam as eleições com maioria absoluta depois de terem governado o Reino Unido com políticas difíceis reduziram a sua proposta eleitoral a apenas uma: “nos próximos cinco anos não vamos aumentar os impostos”. Uma única ideia à volta da qual giraram todas as outras alíneas do programa eleitoral. “Connosco os impostos não aumentam”.

Repor feriados ou baixar o IVA dos restaurantes são ideias meritórias e que as pessoas gostam de ouvir, mas todos sabem não são elas que vão criar empregos, fazer regressar os que emigraram, diminuir a dívida pública ou reformar o Estado.

Se Passos Coelho copiar o seu “colega inglês”, como imediatamente lhe chamou no dia das eleições, e concretizar o seu programa numa ideia simples, ficará em vantagem nas escolhas dos portugueses, apesar de todo o mal feito e muitas políticas erradas.

António Costa tem de agir com a consciência de que as pessoas preferem uma certeza dolorosa a uma incerteza qualquer.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 11 de maio de 2015