Blue eyes

Quando ouvi falar de ti pela primeira vez era miúdo e andava na escola. Eras o favorito da minha professora de português. Eu tinha uma paixão desgraçada por ela. 

Foi por isso que sempre te olhei de esguelha Frank Sinatra. Verdadeiramente, disputavas comigo a primeira mulher da minha vida. Meteste-te comigo. Eu nem te podia ouvir. 

Assim foi durante todo o ciclo e boa parte do liceu. As músicas que ouvíamos não davam para o swing nem haviam pachorra para o jazz. Era uma cidade do interior de Portugal nos anos 70 o que é que querias? 

Foi preciso chegar a Coimbra, terra de doutores e artistas, para que outra mulher, já doutros amores, me tivesse amarrado pelo beiço para eu perdoar a escolha. Era noite, aquecia-me  o desejo e ela mandava.

Era de k7s a aparelhagem, preta e horizontal, mono e roufenha, só uma coluna. Tinha um nome alemão ou italiano não sei. Umas teclas brancas que pareciam teclas de um piano. Carregou no play. Tens de ouvir isto Zé. 

Finalmente ouvi-o. Aquela voz atirava-se a mim como os marinheiros quando se afogam na luxuria depois de perdidos no mar. 

Passei assim os anos todos até agora, amaldiçoando a minha paixão juvenil pela professora de português, essa magnífica e inacessível criatura com que ocupei as paixões de adolescente.

Só mais tarde é que descobri, uns bons 10 anos depois, e quando a televisão ficou a cores, que não devia ser por acaso que ela também tinha os olhos azuis.