O Brasil e a justiça

Um amigo meu que é juiz em Ilhabela. A primeira vez que o visitei contou-me uma história que nunca mais esqueci: “Veja se dá para entender? Aqui é o único sítio do Brasil onde pobre vive na praia e rico vive no morro! Você já viu?”, e ri, perdido no encanto da Ilha que é tão bela que ninguém se atreveu a chamar-lhe outra coisa. Um paraíso da mar e sossego, vela e gastronomia, festa e amigos. A maior ilha costeira do Brasil é verdadeiramente um lugar destinado às elites endinheiradas de São Paulo.

A novidade é que Ilhabela está contaminando o resto Brasil. As recentes (e gigantescas) manifestações de rua contra a presidente Dilma, e a favor da prisão do ex-presidente Lula da Silva, e muitas vezes a favor do juiz Moro, têm as mesmas contradições que o meu amigo encontra na Ilha. Desta vez é a elite branca e rica que protesta na rua e são os pobres, muitas vezes negros, que ficam em casa, aguardando, em expectativa. Uma coisa difícil de compreender na perspetiva sociológica e até totalmente estapafúrdia do ponto de vista da luta de classes.

Podíamos entregar a resposta à criatividade canarinha mas a questão vai mais fundo. O que agora acontece é um retrato exato daquilo o Brasil vive nesta altura. Uma fotografia ajuda a explicar. Cláudio Pracownik, diretor financeiro do Flamengo foi fotografado com a família no protesto de domingo. Cláudio e a esposa, usavam roupas verdes e amarelas – a cor do protesto – enquanto a “babá” usava um uniforme branco e guiava os dois filhos do casal. Eles manifestavam-se e ela estava a trabalhar. Imediatamente se incendiaram as redes sociais com referências ao tempo da escravatura. A mulher negra era obrigada a manifestar-se ou estava apenas a trabalhar?

Esta é uma questão importante mas não é fundamental, e, como todas as questões laterais, ajuda à distração da questão principal. Porque é que os ricos se manifestam na rua? E, o que é que a classe alta está a pedir.

O que a elite brasileira quer não é muito diferente daquilo que sempre se pede em manifestações: mais direitos e uma vida melhor. Só que desta vez os manifestantes não reclamam esses direitos aos mais ricos, porque os “mais ricos” são eles, reclamam-nos ao poder judicial que é o único a quem pensam que podem recorrer. Esgotadas as tentativas (e a paciência) de recuperar o poder pelo funcionamento da democracia – perdido pela direita por culpa própria, por preguiça e falta de visão para a sociedade brasileira durante as décadas – sentem que crise económica e os escândalos de corrupção da esquerda os podem devolver ao poder.

É por isto que estas manifestações estão à partida condenadas ao fracasso. O poder de Dilma continuará incólume porque os pobres, infelizmente em maioria, preferem a corrupção que compactuar com golpes de estado. Nenhuma publicidade será eficaz.

Se a democracia continuar a funcionar normalmente o poder de Dilma até poder sair reforçado. E mesmo que Lula ministro seja inaceitável, a forma pacífica como todos os protestos decorreram não permite que exercito ou polícia intervenham. O Estado continua a funcionar.

Cabe agora à justiça, usada como bandeira nas manifestações, decidir de continua ou não independente respeitando a presunção de inocência até aos eventuais julgamentos, ou se vai ceder à tentação justicialista de fazer política.