Burned out?

Sou o que sou porque é o que aguento ser. Se pudesse, seria mais; mas sendo assim, é isto

À beira da cama da minha mãe:

– A minha mãe tem os lábios secos e cheios de sangue…

– isso não é nada comigo

– então é com quem?

– nao sei pergunte a quem quiser

– desculpe!! como é que a senhora se chama ?

– não me aborreça que tenho mais que fazer.

– mas como é que a senhora se chama ?

– Tá aqui escrito. Não consegue ler… Precisa de óculos? Ele há cada um… (E afasta-se, ou foge, resmungando)

Mais tarde no corredor, encontro-a de novo

– acha que isso é maneira de tratar as pessoas?

– não me chateie, não tem mais que fazer? Vá chatear o Camões (e desapareceu desta vez definitivamente nas entranhas dos hospitais)

Isto aconteceu ainda agora na urgência dos hospitais da Universidade de Coimbra. Foi comigo mas podia ser com qualquer um. Ninguém me soube dizer o nome da mulher que continua por lá a trabalhar. Mas eu quero saber. E que se saiba quem é. Uma técnica de electrocardiogramas (era isso, soube) trabalha 8 horas e vai para casa. Não sofre o que os médicos ou os enfermeiros sofrem, não faz horas extra, não tem mais responsabilidade que fazer testes). Não tem o direito de tratar assim ninguém.