Carmex

Não havia motivo para tanta secura. 

Mais fresca que o habitual a primavera trazia um vento seco e frio, que lhe fazia estalar a humidade na pele. Os dias traziam apenas um sol tão tímido que não chegava para arrumar o inverno na dispensa das recordações.

“Uma irritação, uma angústia! Estes dias grandes que não se assumem quentes. Uns mariquinhas, e que vão para a cama tarde!”

Com a língua humedeceu os lábios olhando para cima. Doíam-lhe! Nada de bom se anunciava nas meterologias. O fim de semana apresentava-se sem promessas de euforias cálidas, mais perto da lareira que das praias.

“Era o que me faltava ter que atear o lume com a luz do dia ainda acesa. Esta terra está cada vez mais  parecida com a Noruega. Um dia deste há cá bacalhaus…”

A língua também não abrandava nas suas viagens. Lábio a cima, lábio a baixo, piorando ao toque de cada insistência uns lábios cada vez mais secos. 

“É preciso resolver isto. Pois muito me parece que o veräo ainda vem longe”