Carta aberta ao meu filho Diogo

Fizeste ontem 16 anos Diogo. Lembro-me do que pensei quando foi minha vez: “já sou crescido, isto é muito diferente de ter 15 anos, agora já sou um homem”. Esse foi um dia fronteira. Hoje, muitos anos depois é a tua vez. Diz-me o que pensas? Será que hoje o Sporting vai ser campeão como no dia em que nasceste? Isso é que era!

São tão diferentes os tempos agora, tão diferentes daqueles quando, em 1982, eu fiz 16 anos. Nestes 25 anos o mundo mudou mais do que em qualquer outra altura da história da humanidade. Queres ver como? As mulheres quase não participavam na vida laboral e ocupavam-se sobretudo da casa da família. A tua avó Piedade era mãe de profissão, e muito boa. Ainda não havia computadores, só máquinas de escrever, os livros eram todos de papel e a internet nem existia. A homossexualidade era uma doença sobre a qual se contavam anedotas e democracia era uma palavra que queria dizer sobretudo esperança. Havia muitas crianças e agora há muitos velhos. Será que somos mais egoístas? Nunca te esqueças que sem jovens não há futuro.

Agora há muitas palavras novas que substituíram outras velhas, e muitas palavras velhas querem dizer coisas novas. Em Portugal a moeda era o Escudo, agora é o Euro. A União Europeia chamava-se CEE e nós ainda não tínhamos entrado. A televisão era a preto e branco, fechava às onze da noite e só havia dois canais. Dois! Acreditas nisso? O cabo, ou era da tropa ou da vassoura, nunca da TV.

Se queríamos saber coisas novas íamos à biblioteca, quando havia uma; agora vamos ao Google, que está sempre no bolso. Os telefones tinham uma roda com números que se discavam. Quando do outro lado atendiam o telefone perguntávamos – quem fala? Agora perguntamos – onde estás? Até parece que o espaço e o tempo trocaram de lugar.

Antes não era o telemóvel que nos dizia se ia chover amanhã – nem havia telemóveis – só um senhor muito simpático chamado Anthímio de Azevedo que ia à televisão todos os dias falar da depressão cavada do anticiclone dos Açores, mas errava tanto como agora. Sabes… o tempo nunca deixou de nos pregar partidas. Até a nuvem, que antes só chovia, hoje já serve para guardar documentos, memórias, ficheiros, sei lá… a vida inteira.

Mas Diogo, diz-me lá, agora que já tens 16 anos, o que pensas? Será que o sporting hoje vai ser campeão? Como no dia em que nasceste? Isso é que era…

Publicado orginalmente em JN a 15 de Maio de 2016