De Castela, nem viúva nem donzela?

Diogo Diogo ilustra

A meio do século XIX Portugal  passou a fazer de conta que Espanha não existia. Exceptuando entre as populações raianas, onde por causa das águas e postos fronteiriços aconteciam alguns conflitos, os portugueses passaram a ignorar completamente os seus vizinhos. Os livros vinham de Paris e as mercadorias de Inglaterra.

Durante todo esses tempo, que durou até à entrada dos dois países na Comunidade Económica Europeia, reavivaram-se os ditados populares, as troças e dichotes e as antigas histórias das guerras contra Castela.

O espírito da Restauração fez-se mais presente e, sobretudo durante o Estado Novo, através de António Ferro – que sugeriu a Salazar em 1932 a criação de um organismo que fizesse propaganda aos feitos do regime – a Política do Espírito explorou o ressentimento histórico de Portugal contra Espanha.

Almaraz é apenas um histórico ressentimento ou e já um sintoma da pós-globalização?

Ainda hoje celebramos o dia – e de novo com horas de feriado nacional – em que defenestrámos o traidor Vasconcelos e corremos com os espanhóis do Terreiro do Paço.

Então… eis que acontece Almaraz e, de forma inesperada, um novel fervor anti espanhol, aparece na opinião pública. Nuestros hermanos, querem fazer-nos uma maldade fronteiriça e construir  um armazém de lixo nuclear que em caso de acidente até pode  mandar a cidade de  Castelo Branco pelos ares. Os políticos portugueses dizem que não, e ameaçam não falar mais com os espanhóis.

Sabemos bem que nenhum político resiste a uma boa hipótese de propaganda, mas nos tempos da globalização o fervor anti- castelhano ainda faz sentido?

Ou é já um sintoma da pós-globalização que aí vem.

Que ninguém se esqueça: de Castela nem viúva nem donzela.