Categoria: Poesia

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. Não florescem no inverno os arvoredos, Nem pela primavera Têm branco frio os campos.   À noite, que entra, não pertence, Lídia, O mesmo ardor que o dia nos pedia. Com mais sossego amemos A nossa incerta vida.   À lareira, cansados não da obra Mas porque a hora é a hora dos cansaços, Não puxemos a voz Acima de um segredo,   E casuais, interrompidas, sejam Nossas palavras de reminiscência (Não para mais nos serve A negra ida do Sol) —   Pouco a pouco o passado recordemos E as histórias contadas no passado Agora duas vezes Histórias, que nos falem   Das flores que na nossa infância ida Com outra consciência nós colhíamos E sob uma outra espécie De olhar lançado ao mundo.   E assim, Lídia, à lareira, como estando, Deuses lares, ali na eternidade, Como quem compõe roupas O outrora compúnhamos   Nesse desassossego que o descanso Nos traz às vidas quando só pensamos Naquilo que já fomos, E há só noite lá fora.   Ricardo Reis
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Muralhas 

Atrás da voz há um mapa À frente dela atenção A muralha é uma canção feita de luz e saudade No coração de Lisboa o tempo sabe passar Passa no rio de barca apontado ao […]

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Beleza

As mulheres hão-de sempre sê-la porque tudo nelas é magia e o seu ar é mais suave e o olhar que nelas pousa é mais leve e jovem esse olhar.  O tempo é  só complemento, […]

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Olhar

Como uma Águia Pesqueira quando mergulha sem vertigem no mar Como um Nadal em top spin buscando na linha o horizonte da forma Como um Picasso sóbrio desenhando deus como uma criança Como um Giotto […]

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Intervalo

Era uma vez em vez de lábios palavras e em vez de voz paradas cigarras Era o tempo do intermezzo meio seco do brandy light by night Era como fosse onde ninguém morava nem o […]

Por toda a parte onde a terra for pobre e alta, elas aí estão, as cabras – negras, muito femininas nos seus saltos miúdos, de pedra em pedra. Gosto destas desavergonhadas desde pequeno. Tive uma que me deu meu avô, e ele próprio me ensinou a servir-me, quando tivesse fome, daqueles odres fartos, mornos, onde as mãos se demoravam vagarosas antes de a boca se aproximar para que o leite se não perdesse pelo rosto, pelo pescoço pelo peito até, o que às vezes acontecia, quem sabe se de propósito, o pensamento na vulvazinha cheirosa. Chamava-se Maltesa, foi o meu cavalo, e não sei se a minha primeira mulher. Eugénio de Andrade
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Luz garra

Aí no silêncio onde moras à luz oblíqua de outono sou teu íntimo felino Garra da tua sombra mago devoto na tua luz Improvavel profeta ecrã impossível tocar-te e fuga e som

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti...

Para ser grande, sê inteiro: Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive
Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. Sol doira Sem literatura O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como o tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D.Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. Mais que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca... Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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The Other Bridge

The seagull’s wings shall dip and pivot him, Shedding white rings of tumult, building high Over the chained bay waters Liberty— Then, with inviolate curve, forsake our eyes    As apparitional as sails that cross […]

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mar liber

Quero a poesia e a liberdade Quero de novo ser a chama que arde e o som que queima e as as palavras ciclónicas  bicórneas, biónicas Quero os cheiros as flores e bicas de suor […]

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Flor consoante

As flores do pão de canela em todas as mesas se falam homens antigos e mulheres de histórias que não viveram memórias só gestos de agora é verão na cara deles há delas memória e um […]

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Tempo

Manobras o ponteiro dos minutos como se fosses uma fera enjaulada.  Como se nada houvesse que não seja o vazio eterno dessa estrada.  Não me levanto nunca  sem pedir que a tua alma acabe, que […]