Como ser amado

Não se engane o leitor. Este texto não é uma daquelas listas de conselhos infalíveis para uma vida harmoniosa e feliz, nem tão-pouco um guia rápido para ser popular nas redes sociais. Não é um daqueles inventários rápidos tipo “as 10 melhores técnicas para encontrar o amor da sua vida”. Se gosta dessas coisas, muito bem, mas não é aqui.

Se, por outro lado, está interessado em saber o que pode fazer Portugal para aproveitar o melhor que tem e triunfar na cena internacional, tornando-se num país melhor para os seus cidadãos (que somos nós) e para o resto do mundo, está na página certa. Agora, se já ganhei a sua atenção, sente-se bem sentado que as crónicas deste tamanho requerem algum conforto e tempo para o pensamento. São 10 minutinhos e depois está livre para ir à sua vida.

Há coisas que parecem de propósito. Na semana em que o nosso Governo de Esquerda tomou finalmente posse, 50 dias depois do previsto, a revista “Monocle” – vale muito a pena ir a uma banca perto de si e depois de comprar o “Jornal de Notícias”, investir tempo a lê-la – dedica o seu mais recente número a um assunto que interessa muito aos nossos novos governantes: o Soft power. Bem sei que traduzido à letra “Força Suave” mais parece o nome de uma sobremesa carioca ou de um defeito comportamental num “Jedi” da “Guerra das estrelas”. Mas não é.

Já houve tempos em que para medir a importância relativa das nações apenas era relevante a “Força Dura” e para as contas só se somavam espingardas, tanques, soldados, caças e mísseis. Eram os tempos de “o meu é maior do que o teu”, o que, embora o tamanho seja relevante, é nos dias de hoje um argumento cada vez mais desvalorizado. Hoje qualquer psicólogo, sociólogo ou comentador político nos explica que o tamanho não é tudo e não chega para atingir a felicidade. No mundo globalizado e permanentemente escrutinado pela comunicação há outras variáveis que são muito relevantes. As medidas do Soft power são uma parte cada vez mais importante na medição do poder das nações. Aqui está o que interessa ao nosso Governo.

Por Soft power entendem-se as capacidades que uma nação tem para influenciar positivamente o seu futuro, aumentando o seu poder global sem recurso à força militar, fazendo coisas inteligentes e sempre muito mais baratas do que comprar armas ou manter exércitos, criar um serviço da televisão pública em língua espanhola ou em português do Brasil, atrair jovens de um determinado país para estudar em Portugal, escolher bem em que países deve atuar a nossa principal orquestra ou se vale a pena fazer com que o Ronaldo jogue de novo no Sporting.

Em tempos de pouco dinheiro, mas sobretudo nesta época da conectividade global, onde tudo está ao alcance de todos, as oportunidades para o Soft power fazem com que seja mais importante para uma nação apostar na Cultura do que na Defesa. O novo Governo parece saber bem isso, ao criar um Ministério da Cultura onde antes só havia um deserto. A cultura é o coração do Soft power.

Do inquérito conduzido pela revista canadiana resulta uma análise aos países que melhor usam os seus méritos Soft power. No ranking dos melhores 25, Portugal ocupa a 19.ª posição. Sobre nós a “Monocle” diz pouco, mas o que diz é bom. Para recuperar do preço pago na crise financeira que nos trouxe “grande desemprego, salários baixos e reformas magras”, é agora tempo fazer crescer o mercado interno. Para isso, temos de impedir que a nossa mão de obra altamente qualificada e bilingue continue a emigrar. Ela é única coisa que consegue atrair para Portugal as grandes marcas internacionais capazes de gerar riqueza.

Para que os melhores não saiam é preciso que possam encontrar cá dentro aquilo que procuram no estrangeiro. Empregos sim, mas também liberdade de imprensa, pluralidade de pensamento, acesso à cultura e espetáculos. Afinal, isso é o melhor da vida.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 7 de dezembro de 2015