Coabitação

EMPATIA São ambos pragmáticos. E danados para a brincadeira. Mas têm-se dado bem. Vão continuar a entender-se?

A relação entre Costa e Marcelo tem tudo para correr bem

TEXTO – ANGELA SILVA E CRISTINA FIGUEIREDO | FOTO – TIAGO MIRANDA

Marcelo Rebelo de Sousa conheceu António Costa na Faculdade de Direito de Lisboa e nas entrevistas como candidato presidencial tem tratado de pôr cada macaco no seu galho: ele foi o professor e Costa o aluno. Só depois é que vêm os elogios: “Era muito bom aluno, acima da média, muito rápido, daqueles que toca de ouvido.” Deu-lhe 17 (uma raridade!) em Direito Público Comparado. E respeitam-se desde então, apesar de sempre terem navegado em águas políticas separadas.

Costa é estruturalmente de esquerda e Marcelo de direita. E nenhum deles ama um Bloco Central. Fascinados pelo jogo da política, preferem as vantagens de um mundo politicamente bipolar, como prova a sua história. Marcelo esteve na Nova Esperança a combater, nos anos 8o, o Governo de Soares e Mota Pinto, e Costa sempre preferiu, da Universidade à Câmara de Lisboa, as alianças com a esquerda. Imaginando um em Belém e outro em São Bento, o embate pareceria inevitável. Mas, ao contrário, cheira a relação promissora.

Porquê? Porque vão precisar um do outro. À frente de um Governo ancorado em acordos com o PCP e o BE, António Costa sabe que ter Marcelo em Belém traz-lhe enormes vantagens. Uma coisa era contar com Sampaio da Nóvoa se tivesse que governar com o apoio da direita, outra é precisar de alguém que o ajude a temperar as exigências dos “camaradas” de esquerda no Parlamento.

Marcelo, pelo seu lado, já mostrou que na última etapa da sua vida política sonha ser, sobretudo, um fator de união. E a melhor maneira de o conseguir é ter pela frente o desafio de lidar com um Governo apoiado pelo PCP sem pôr em causa as pontes que sempre tentará manter com a sua família política.

PRAGMÁTICOS E INCORRUPTÍVEIS

“Vão-se usar pragmaticamente”, antecipa José Miguel Júdice, amigo e conhecedor de ambos. Feliz por Ver chegar ao topo “dois políticos que são os mais dotados das suas gerações”, Júdice dá um enorme voto da confiança à coabitação que, tudo indica, se avizinha: “Se Marcelo for eleito e Costa durar, talvez esta seja a fase de maior concentração de qualidade política no pós-25 de Abril”. Na sua opinião, como todos os grandes políticos, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa são “de um grande pragmatismo”. E ambos “sabem ser redondos”. Em comum têm valores essenciais: “A preocupação social, um total desinteresse pelo dinheiro e o facto de serem absolutamente incorruptíveis.” E embora ambos gostem da confrontação política, acabam por ser “Conciliadores”. É de Júdice a frase que deu o título a este artigo: “Isto tem tudo para correr bem.”

MARCELO SOBRE COSTA: “É MUITO BOM EM POLTÍCA PURA; UM MISTO DE ‘FAZER DE MORTO’, DE HABILIDADE A GERIR PESSOAS”

Luís Marques Mendes, que enquanto líder parlamentar do PSD negociou com Costa, então ministro dos Assuntos Parlamentares de António Guterres, partilha a visão de algum utilitarismo mútuo nesta relação: “Costa precisa como de pão para a boca de ter paz com o próximo Presidente, porque não tem vida fácil no Parlamento e não pode ter duas frentes de fragilidade. E Marcelo tem todo o interesse em consolidar uma imagem de não conflitualidade, porque é daí que vem a sua popularidade e é a popularidade que lhe dá autoridade.”

Do gabinete do primeiro-ministro vem apenas uma garantia “institucional”: “O primeiro-ministro dar-se-á sempre bem com o Presidente da República, seja o atual, seja qual for o próximo.” Mas, em privado, Costa já tem comentado não perder o sono com a perspetiva de ter Marcelo em Belém. Estará convicto que ele será um bom Presidente, encarando o mandato como a última oportunidade de deixar uma imagem diferente e um legado que não seja apenas o de um grande comentador político. O antigo aluno do professor acreditará mesmo que Marcelo será muito equilibrado, que se esforçará para desmentir todos os dias a fábula do “escorpião”, aspirando a ser, depois de Soares, o chefe de Estado a deixar mais marca afetiva no povo.

Interesses políticos ã parte, ajuda à perspetiva de uma coabitação pacífica o facto de manterem boas relações pessoais e respeito mútuo. Desde os anos em que Marcelo presidiu ao PSD que conversam com frequência, umas quantas vezes ã mesa do jantar no Bica do Sapato (nomeadamente nos anos em que Costa, ministro da Administração Interna, recorria aos conselhos do jurista Marcelo para pensar a reforma da Administração Pública), outras (as mais recentes) ao telefone. Ambos adoram uma boa negociação, ambos estão muito à vontade na política pura.

RISCO DE TROPELIAS

Em abril, numa conversa com os autores da biografia de António Costa “Quem disse que era fácil?”, Marcelo reconheceu ter ficado já ” muito bem impressionado” quando era líder do PSD e negociou com Costa, então ministro dos Assuntos Parlamentares, a viabilização de dois orçamentos de Estado. “Costa é muito bom em política pura e um OE é política pura. É um misto de ‘fazer de morto’, de diplomacia, de habilidade a gerir pessoas”. Sobre as capacidades do agora primeiro-ministro deixou apenas uma reserva: “Está por provar que seja assim tão bom na gestão de dossiês concretos da governação”.

Claro que há sempre o risco de se salpicarem com tropelias políticas. Quando Marcelo se candidatou a Lisboa (em 1989) contra Jorge Sampaio e Costa era o braço direito do candidato socialista, suspeitou que foi ele o autor de uma tramoia aos seus cartazes. No livro conta: “Havia uma empresa de reparações que era a TV Marcelo e a minha campanha tinha uns cartazes enormes com Marcelo escrito a vermelho. Um dia, alguém escreveu por cima do meu nome TV (…). Ainda hoje acho que foi o Costa.”

O Marcelo da vichyssoise também fez das suas. Mas José Miguel Júdice não vê nisso “nada de grave”. Acha até que se alguém se deve acautelar mais é Marcelo, porque “o Costa tem um instinto assassino que ele não tem”. “O Marcelo brinca com a vida, que é outra coisa.” E, sobretudo, está numa fase em que quer “jogar para a história” e isso passa por “unir o país”. Desenganem- se, no entanto, os que esperam de Marcelo um Presidente tão cordato quanto tem sido como candidato. Nem Mendes nem Júdice duvidam que, se for necessário, ele intervém. Embora não represente, à partida, um risco para a “geringonça” que a direita, a quente, quis que Marcelo garantisse apear mal lá chegasse. “Ele não vai aguentar o Costa ao colo se o próprio Costa não se aguentar”, antecipa José Miguel Júdice, “mas também não vai derrubá-lo só porque a direita o quer”. Marques Mendes concorda: “Quando houver crise política não será desencadeada a partir de Belém. Virá do Parlamento.”

Tratando-se de dois políticos com aura de fazerem das suas (Marcelo, o “intriguista”, e Costa, o “golpista”) a necessidade de recuperarem créditos e fiabilidade tenderá para já a concentrá-los no objetivo central de puxar pelo país. A médio prazo, o grande desafio para António Costa será evitar que a imbatível popularidade de Marcelo descambe, a partir de Belém, numa ameaça.

COSTA JÁ TERÁ ADMITIDO NÃO PERDER O SONO COM A PERSPETIVA DE TER MARCELO EM BELÉM, ACREDITANDO QUE SERÁ UM BOM PR

Artigo pertencente ao jornal Expresso de dia 31 de dezembro de 2015