Crónica de uma tragédia anunciada

Depois da dor vem o luto. E com o luto as perguntas. O tempo está mais fresco. Os mortos já foram a enterrar. Mas o ar está mais pesado que nunca.

Porque é que falharam as comunicações que ajudaram a condenar à morte apelas pessoas? De quem é a culpa? Quem é responsável pela invenção, compra e manutenção daquele SIRESP, o sistema de comunicações que falhou durante 14 horas e meia, largando o inferno sobre os portugueses, precisamente na altura em que todos precisamos dele?

Chego ao Google e refino a busca para o ano de 2008. Encontro um artigo que conta a história. É da jornalista Mariana Oliveira. Primeiro parágrafo: “O Estado está a pagar por uma rede de comunicações do Ministério da Administração Interna um total de 485,5 milhões de euros, cinco vezes mais do que poderia ter gasto. A conclusão vem num relatório, escrito em maio de 2001 pelo primeiro grupo de trabalho que estudou a estrutura desta rede de comunicações e a batizou de Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal, SIRESP”.

O autor do estudo, Almiro de Oliveira, levou 7 anos a falar sobre o sistema porque, por alguma estranha razão, ninguém do Ministério Público o quis ouvir. A compra do sistema, sempre polémica, foi feita pelo ex-ministro da Administração Interna Daniel Sanches, já quando o Governo de Santana Lopes se encontrava em gestão corrente.

Envolvidos neste processo estão quatro governos sucessivos. De António Guterres a José Sócrates, passando por Durão Barroso e Santana Lopes, ninguém sai bem na fotografia. Foi mesmo o atual primeiro-ministro, António Costa, então ministro da Administração Interna que negociou um melhor preço, e assinou a compra definitiva daquela geringonça.

Durante todo este tempo o SIRESP falhou imensas vezes e custou mais uns milhões de euros em manutenção. E ninguém disse nada. Só que desta vez é diferente. Se a culpa for do SIRESP, desta vez há muitos mortos a olhar, muitas famílias a sofrer, muitas vidas destruídas e uma vergonha nacional para resolver.

Apesar do calor extremo, das trovoadas secas e dos golpes de vento, a culpa não pode morrer solteira, nem queimada. Alguém tem de ser responsável pelo que aconteceu, fez ontem oito dias, na Estrada Nacional 236-1, entre Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 25 de junho de 2017