Deus queira que eu me engane!

Vêm aí mais quatro anos do mesmo. Podemos ficar descansados. Nada de substancial se vai alterar nas nossas vidas. O novo Governo vai trazer mais do mesmo. O que não vai ser bom nem mau. Só o mesmo.

Sabemos disto porque quem vai governar são os mesmos. Vêm dos mesmos sítios, das mesmas profissões, das mesmas geografias, do mesmo escritório, do mesmo escopo político partidário, da mesma jota, do mesmo lado. O que por um lado é bom; porque sabemos com o que contar. Por outro é mau; exatamente pela mesma razão.

Nada vai mudar na Inovação, que continuará a ser uma fogueira de vaidades, muita parra e pouca uva, incapaz de definir uma única vertical de liderança no ecossistema global. Por exemplo: Lisboa, centro do ecossistema da inovação global em turismo.

Nada vai mudar na Saúde. Quem for remediado e tiver um seguro, pode tratar a unha encravada num hotel de 5 estrelas com nome de hospital. Se tiver um cancro vai para a fila (ou para a cunha) dos hospitais públicos como todos os outros. Se for rico vai a Londres. Se for pobre, pode morrer na lista de espera.

Nada vai mudar na Educação. Os alunos, sobretudo os do ensino público, vão continuar a ter professores entristecidos que pensam que a história os tratou mal e a sociedade não lhe dá o reconhecimento que merecem – e vão vender aulas barulhentas a crianças malcomportadas. Há outros alunos que estudam em escolas privadas onde os professores não confundem liberdade com qualidade.

Nada vai mudar no interior, que vai continuar abandonado, com pessoas cada vez mais velhas, terras cada vez mais vazias e incultas e incêndios cada vez mais prováveis. Sem políticas de coesão de território nem atrativos que tragam para a raia emigrantes e jovens.

Nada vai mudar na relação entre políticos e cidadãos. Ela vai continuar a ser como um casamento de longa duração, onde tudo é habitual, e o sexo é uma obrigação que não é boa nem má. É como ir ao supermercado às compras todos os domingos. Às vezes há mais dinheiro, às vezes há menos.

Mas pode ser que me engane, Deus me perdoe!


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 17 de outubro de 2019