Emigrantes. Precisa-se.

“País moderno precisa de habitantes no interior. Oferece-se paz e boas condições de trabalho. Tecnologia de ponta e ótimas vias de comunicação.” Podia ser este o texto de um anúncio, a traduzir em várias línguas e a publicar na imprensa internacional. Portugal já não precisa de mais pêsames. Precisa é de mais gente.

Foi a fazer a viagem pela A23 até Castelo Branco que, de Abrantes a Vila Velha de Ródão, percebi melhor. É que não se compreende bem quando é só visto na TV, com as interpretações e os comentários de outros. É muito diferente com os olhos lá.

O interior de Portugal é uma zona de guerra. Podia ser Beirute nos anos 80, os Balcãs dos 90 ou a Síria de agora, tal é a destruição que por lá se vê. De um lado e de outro da estrada, por intermináveis quilómetros apenas se avistam dolorosas paisagens cinzentas, restos a preto e branco da floresta consumida pelas chamas, esmagados pela canícula de agosto e pelo azul do céu. Nada verde sobra ao redor. A terra está morta.

Mas porque arde Portugal? Porque arde este ano mais que nos anteriores? Porque tomaram os incêndios estas proporções?

Ao contrário da Guerra, que muitas vezes tem origens e causas confusas e difíceis de compreender as razões dos incêndios são simples e fáceis de compreender.

Ninguém vive no interior e por isso a floresta está deserta. Tirando os 20 Km de faixa litoral, de norte a sul, o resto do território nacional está entregue a meia dúzia de escuteiros e a uma legião de velhos que escaparam ao apelo do futuro e não apanharam boleia para a cidade nas autoestradas milionárias.

É preciso gente no interior de Portugal. Em Mação que ardia à nossa passagem, o presidente da Câmara, Vasco Estrela, gritava isso mesmo na TSF. “Metam aqui os olhos, na desgraça dos outros, e que façam alguma coisa pelo interior”.

Embora Portugal tenha hoje mais 1,5 milhões de habitantes que há meio século, o território nacional está desocupado como nunca. Todos vivem nas cidades. 80% na nossa terra não tem ninguém. Somos um país fantasma.

O Governo agora presta ajuda às pessoas e empresas que perderam tudo quando a tragédia do fogo desabou sobre elas. E bem: é preciso cuidar dos vivos. Mas o Governo não pode ser apenas um provedor de sentimentos ou um reparador de tragédias. Lamentar não chega.

Precisamos de um Governo povoador. Que consiga promover a reocupação do território e volte a dar homogeneidade a Portugal. Ao ritmo a que nos multiplicamos o problema só vai piorar. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, Mação tinha mais de 20 mil habitantes agora, 50 anos depois, tem 7.

É preciso chamar estrangeiros para Portugal. É preciso escolhê-los e trocar as vantagens da nossa terra por uma nova força. Assim fizeram todos os grandes países. Assim devemos fazer nós.


Publicado originalmente em Jornal de Notícias a 20 de agosto de 2017