Esperança numa alma em cinzas

Terror. Não consigo olhar mais para a televisão. Primeiro ligou-me a Mariana que vive em Londres a perguntar-me o que tinha acontecido. Se eu estava bem. A Mariana marca-se sempre como segura nas redes sociais quando há um ataque terrorista em Londres, o agora que acontece quase todos os 15 dias. Preocupo-me com ela e com os outros amigos que vivem lá. Mas de alguma forma é expectável. Mas não aqui. As chamas em Portugal ficavam mais letais que o terror em Londres. Como?

Lágrimas. Ontem, à hora de almoço, quando estava sentado à mesa com amigos, o assunto dos incêndios era omnipresente. Não era possível deixar de ver a televisão. Naquele restaurante pequeno, perto do teatro Tivoli BBVA, em Lisboa éramos 5 à mesa. Todos indignados com o tratamento jornalístico que a comunicação social estava a dar ao assunto. A Ana prometia estaladas àquela pivot da televisão, da SIC, que numa entrevista ao ministro Capoulas Santos a primeira coisa que lhe ocorreu foi perguntar se ele se sentia culpado. O Paulo confessou que tinha chorado a ver a reportagem de um marido sobrevivente a um resgate impossível – em que a malvada sorte lhe havia levado a mulher e os filhos, enquanto ele salvara a sogra e uma tia. O Homem descrevia, impassível, como num romance de Fernando Namora, o trigo e o joio que era ver a sua mulher em chamas do outro lado da parede de Dante.

Indignação. Ainda no tal restaurante. O Rodrigo que dedica a vida ao fado e ao amor, atirava que tudo tem a ver com as redes sociais. Antes delas, as pessoas não procuravam reduzir o mundo a títulos incendiários (que bem que esta palavra vai aqui, e que trágica). Se o facebook não existisse as pessoas estariam menos nervosas; e os jornais, e as televisões, não viveriam escravos do clique, do “like”, da chispa incendiária do comentário, da vertigem que faísca nas audiências. Não há pior que notícias falsas sobre uma tragédia real.

Coragem. O Presidente da República, o nosso Marcelo, junta-se ao olho do furacão e vai a Pedrógão Grande para estar junto das pessoas. Vai dar beijos e abraços, chora junto de todos. Aí, conta a Rita, ainda no mesmo pequeno restaurante de Lisboa onde nos encontramos e onde não é possível deixar de olhar para os sete pivôs da TVI alinhados como num jogo de futebol, que uma jornalista perguntou ao presidente dos afetos se ele “achava bem vir dar beijos às pessoas numa situação daquelas’”. Só podemos ter piedade bíblica, para não termos desprezo ou nojo, de quem pergunta para que servem os beijos e abraços no meio da dor. E nem ousamos adivinhar que usos é que a criatura costuma dar à boca. A histeria instala-se, as audiências sobem.

Política. A Televisão ficou lá dentro. Estão outra vez 40 graus. Viajo para Coimbra e penso. Nunca como no dia de hoje faz tanto sentido expropriar sumariamente a floresta abandonada. O Governo tem, por causa desta tragédia desmedida, uma oportunidade única para acabar de vez com o flagelo dos incêndios. Hoje, amanhã, depois, daqui a um mês, ninguém se irá opor a que o território português seja organizado de forma diferente. Para acabar com os incêndios, para evitar estas mortes ninguém terá coragem de votar contra. Nem os proprietários que não cuidam da floresta, nem os líderes dos partidos políticos – será que nenhum deles vê pelo a oportunidade(?) – nem a sociedade civil, se vão opor. Ninguém vai estar contra quem nos obrigue a dar o que não usamos em nome da vida.

Homenagem. Ouço rádio no carro. Rumo a norte. O fumo pesa no ar. Resolver o problema do ordenamento florestal seria a melhor maneira de homenagear as pessoas que perderam a vida esta semana. Mesmo que custe votos – e vai render mais que custar–  os políticos têm aqui a oportunidade de ficar para a História e o país a oportunidade de transformar a nossa floresta trágica num verdadeiro ativo económico.

Esperança. Como seria bom iniciar uma nova era, onde a floresta fosse capaz de produzir riqueza e fixar pessoas, em vez de sentenciar à morte os que a sorte atraiçoou num golpe de vento e fogo.

Futuro. Hoje começa o verão. Tudo pode repetir-se muitas vezes mais. Será que é desta que vamos mudar? Ou nem assim?!