Este país não é para refugiados

A solidariedade impele mas a realidade desobriga. Até podemos querer acolher uma família de refugiados sírios lá em casa. Mas o mais certo é eles não quererem vir.
Jornal de Notícias, 30 de Novembro 2015

Uma coisa é certa. Os refugiados não querem vir para cá. Apesar da nossa famosa tranquilidade, propalado crescimento económico e aparente progresso, os que fogem da guerra não querem recomeçar a vida em Portugal. Valores mais altos se levantam.

Não deixa de ser inquietante pensar que as famílias que arriscam a vida em barcos no mar e se acotovelam em campos de refugiados no centro da Europa, quando confrontados com a possibilidade de um bilhete para Lisboa não queiram sequer ouvir falar de Portugal. A pergunta grita mas a resposta mete-se pelos olhos dentro: quem já arriscou tudo não se contenta com pouco. Quase todos preferem continuar estacionados num Centro de Acolhimento de Refugiados (CAR) num qualquer país da Europa central, sujeitar-se, a si e aos seus filhos, a duras condições de vida, que ainda vão piorar com a chegada do inverno, do que escolher vir morar para o nosso clima ameno e ensolarado. Não o querem fazer sem esgotar todas as hipóteses de ir para os países ricos do norte. Na equação entre sol e futuro Portugal fica a perder.
Foi na semana passada que começaram a chegar as notícias. “A esmagadora maioria dos requerentes de asilo que transitam pela Europa querem seguir para a Alemanha e para a Suécia” mostraram as televisões, disseram as rádios, depois escreveram os jornais.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras reconhece que o processo de recolocação de refugiados está a ter dificuldades devido à burocracia (os países do norte anteciparam o problema e resolveram essas questões), mas também (ou sobretudo) porque os refugiados recusam viajar para Portugal. No início de setembro o governo anunciou que iria acolher quase 5 mil, mas até ao Natal apenas 50 deverão chegar vindos da Itália e da Grécia. Entre os refugiados circula a informação de que nos países do norte há trabalho e se pode ter um bom nível de vida enquanto sobre Portugal o desconhecimento é absoluto. Tão absoluto que o embaixador português na Grécia, Rui Alberto Treno, teve que ir a um CAR na ilha grega de Kos apresentar o país e explicar aos refugiados o que os espera quando chegarem à ocidental praia lusitana. Uma espécie de embaixador do Aicep que em vez de captar investimento vai à procura de refugiados que aceitem o nosso país. Esta ideia que à partida até pode parecer bizarra – mas porque é quero eu ter refugiados em dificuldades minha casa? – ganha outros contornos quando despojada dos atuais medos do terror e outros preconceitos.

A história mostra que há sempre vantagem em receber emigrantes. Umas diretas e outras indiretas. No caso presente há uma vantagem imediata: o apoio monetário da Europa. Por cada refugiado que aceite vir para Portugal o governo recebe de imediato 6 mil euros e o apoio estende-se até 2020. Se todos quiserem vir – e Portugal disponibilizou-se para receber 4.754 – o valor total envolvido pode oscilar entre 28 e 70 milhões de euros. Mas mais importante que este bónus pecuniário são as vantagens indiretas: desde sempre todas os estados do mundo beneficiaram muito com a chegada de emigrantes. Os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, a França, a Inglaterra e a Alemanha, não seriam o que são hoje sem os fluxos de migrantes italianos, russos, chineses, japoneses, portugueses, indianos, marroquinos, turcos etc, etc.
Portugal – pobre, envelhecido e preguiçoso – a braços com os problemas sociais e económicos próprios das nações com crescimento demográfico negativo e fraca produtividade, pode aproveitar muito com a chegada dos refugiados. É certo que as causas da presente onda de migrantes são terríveis, a guerra da Síria e a desregulamentação no Magreb são verdadeiras tragédias, mas estas famílias que podem agora chegar a Portugal são uma verdadeira oportunidade para nós. Assim eles quisessem vir.

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