Este tempo não é para velhos

Uma das maiores dificuldades para os pais deste milénio é a saber como compreender a forma como os seu filhos atingem e gerem o conhecimento. O século XX, esse antigo nosso tempo, era linear e consequente. Hoje as coisas já não são bem assim. Antes “uma coisa” era sempre consequência “de outra”. E essa coisa estava quase sempre perto ou então era conhecida por todos. Não havia surpresas ou novidades. Antes os filhos aprendiam dos pais porque tinham menor acesso à informação. Hoje já não é assim. Esta é, aliás, uma das premissas que mudou para sempre. Os nossos filhos têm, porque são menos ocupados e mais digitais acesso a mais e melhor informação que os seus pais.

O desafio é agora muito maior. Antes o problema era saber que informação devíamos proibir agora é preciso saber que mundo devemos conhecer. E neste “jogo” os mais novos levam grande vantagem.

Ser pai, nos tempos que correm é a tarefa mais difícil que pode haver. Os nossos filhos têm mais informação, mais tempo, mais conhecimento e mais juventude. Por isso argumentam como se fosse velhos. A bom da história é que isso nos faz mais novos.

Recordo um diálogo, ainda desta semana, com o meu filho mais velho:

– Diogo, para de jogar! Passas a vida agarrado a isso. Depois não te queixes que tens falta de tempo.

Mas ele não se queixa e as notas são sempre boas. Melhores que as do pai na mesma altura. E refila porque não “compreendo” os nexos de causalidade entre o “Call of Duty” ou o “Fifa 16”

Ainda assim eu insisto, convencido que passar horas a viver num ecrã não pode ser coisa boa.

— Tens de me provar que estares sempre a olhar para ecrãs não te vai prejudicar”. Diogo aceita o desafio e responde depressa. Passado um dia vem com artilharia. Atira-me à cara um estudo de Jonathan Sherwood, investigador da Universidade de Rochester e uma conferência da professora Daphne Bavelier do Massachusetts Institute of Technology.

— Pai, vamos tomar como exemplo a famosa série de videojogos “Call of Duty”, (mais conhecido pelos mais velhos como “o jogo de andar aos tiros”). Mais de100 milhões de pessoas jogaram este jogo durante um total de 25 mil milhões de horas. Tudo somado são 2,85 milhões de anos. Um tempo maior que a existência humana. Ok?

— Certo, isso é muito bonito — digo-lhe com estatístico desdém — mas a pergunta mantém-se. Qual é o efeito no nosso sistema?

— Pai, para começar vamos falar da visão. Há a ideia popular é que ficar a jogar videojogos de ação em frente a um ecrã torna a nossa visão pior, certo? ­Errado. Um estudo realizado pela Universidade de Rochester concluiu que jogar este tipo de jogos mais de 5 horas por semana causa uma melhoria na percepção de sombras de cinzento. Mais 58%. Parece pouco? Olha que em determinadas situações pode ser a diferença entre a vida e a morte.

— A vida e a morte! – atiro – estás mesmo a exagerar. Como é que em videojogos há situações tão extremas?

— Daddy, se estiveres a conduzir no nevoeiro, ter um “gamer” no carro pode ser a diferença entre ver o carro da frente ou não. E ter um acidente ou não.

Não me dou por vencido e avanço outro argumento – mas os videojogos levam a problemas de atenção e distração…

– Mais uma crença popular papá — “nada mais errado! — Um estudo que mede a atividade cerebral entre “gamers” e não-“gamers” prova o contrário.

— Repara – adiantou-se o Diogo com a pose de um professor – É uma questão de atenção! — disse.­

— Na zona do lóbulo parietal que orienta a atenção, na do lóbulo frontal responsável por a manter e no anterior “cingulate córtex”, responsável pela sua regulação, o cérebro dos “gamers” é bastante mais eficiente.

Depois rematou com daquelas metáforas que sabia que eu, adulto antiquado, podia compreender.

– A professora Daphne Bavelier, investigadora do MIT, diz que os videojogos são como o vinho. Há muitas que fazem mau uso de jogos como outras mau uso vinho. Mas como tu dizes, na quantidade certa ele até é bom para a saúde.

Terminou, deixando escapar, enquanto subia as escadas — até já há terapia de videojogos, que põe os avós velhinhos a ver melhor. E olha – disse enquanto desaparecia no seu quarto — vou fazer os trabalhos de casa que isto isto não é desculpa para deixar de os fazer.

Olhei para ele. Só me ocorria uma música do Dylan – Times y are changing — esta eu sabia que ele não conhecia. Mas em boa verdade isso não me servia de nada.

Jornal de Notícias, 5 de outubro 2015

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