Eu tenho vergonha


Os meus amigos ligaram-me. Amigos de muitos lados. De muitos credos. Muitos. Mostraram-me indignação. Eu fui ouvindo em silêncio. E fui ganhando vergonha. Estou coberto dela. E agora não posso ficar calado.

Os espanhóis saíram à rua porque houve incêndios e morreram 4 pessoas. 4! Em Portugal morreram mais de 100. Não saímos?? Devíamos sair. Temos de sair.
Porque se não sairmos morremos de vergonha. Eu morrerei de vergonha.

Por isso vou sair à rua. Nem que seja só eu.

Vou pegar numa folha de papel, vou escrever nela “EU TENHO VERGONHA”  e vou levantá-la à frente da minha cara. E vou ficar em silêncio. Em pé. Com vergonha. Só vergonha.

E não vou sair à rua para dizer mal dos políticos, nem quero atacar os partidos, nem quero culpar ninguém. Apenas quero ter vergonha. E mostrá-la a todos. E fazê-la sentir a todos. E senti-la eu. Que estou longe das árvores que ardem e dos Homens que sofrem impotentes. E dos que morrem sem ajuda.

E não quero que a minha vergonha seja uma pedra para atirar.

Não quero que minha vergonha seja uma arma política. Não sou contra ninguém.

Quero só envergonhar-me perante os que só puderam sofrer. E já não se podem envergonhar.

Só quero poder envergonhar-me à frente de todos. E pedir desculpa, calado, aos que sofreram porque o nosso país não funcionou. Porque o nosso Estado se diluiu na globalização sem acautelar a sua identidade, a sua unidade, a sua razão de ser.

Quero envergonhar-me antes que seja tarde demais.

Vou envergonhar-me na avenida da República em Lisboa esta sexta feira de manhã. Na praça do Saldanha. Às 10. Lá onde nenhuma árvore ardeu e ainda ninguém se indignou.

Os portugueses têm de mostrar a todos, aqui e em todo o mundo, que somos somos um país de bem. Um País solidário. Uno. Indivisível. Onde, de alguma forma, todos os portugueses são irmãos.

Quando ontem perdemos o pinhal de Leiria, não foi só um incêndio. Ardeu um dos mais importantes símbolos da nossa identidade. O primeiro marco da identidade do nosso território.

Não foram apenas árvores que arderam. Foi Portugal. Eu, tu, cada um de nós.

Não podemos entrar na era do fogo de braços cruzados.

Vou envergonhar-me na avenida da República em Lisboa esta sexta feira de manhã. Na praça do Saldanha. Às 10. Lá onde nenhuma árvore ardeu e ainda ninguém se indignou.

Vou ficar um minuto só e silêncio.

Vou cobrir as lágrimas do meu rosto com as palavras da minha vergonha.

Se quiserem vir encontramos-nos lá.

Eu não quero ter vergonha!