Fala Cara!

Fala cara

– Alô.
– Tô.
– Eu também.
– Desculpa, não percebi.
– Percebeu o que? Ah, sim, aquilo lá… Foi uma brincadeirinha. É que acho engraçado o jeito como vocês atendem o telefone… se comunicam…
– Pois o senhor tá a gozar, portanto…
– OI?! Eu, gozando numa hora dessas? No trabalho?

Oi. Olá. Esta é uma crônica lusófona, feita da mais inexata expressão verdadeira. Feita por mim e pela Tiara, uma brasileira com sotaque do sul, que trabalha numa empresa de comunicação em Portugal. Um texto acordado entre os lado de cá e de lá, do oceano que nos une.

Comunicar roça os sentidos do domínio comum de uma mesma língua, ainda mais quando esta mesma língua é cheia de outras falas. Bem-vindo ao complexo idioma de Camões, Pessoa, Machado de Assis e Caetano Veloso. A minha pátria é a minha língua Portuguesa.

Exatamente o que torna a Língua Portuguesa tão fascinante (e estudada) é a sua inexatidão. Cá, aqui, lá e acolá. Os limites, os contrastes e os encontros. A gramática e a prosódia submetidas à História, ao tempo, ao espaço e às suas relações. À criatividade e às necessidades dos seus sujeitos falantes. Os usos instaurados, afectivos, por ora promíscuos, dos seus sentidos. A língua enriquecida. Quantas falas cabem numa língua? Quantas identidades há numa nação?

Temos presenciado o despontar económico e político de um dos nossos vizinhos de verbo mais pujante, os lusófonos brasileiros. Terra em brasas, o Brasil arde: em São Paulo, a cosmopólis de uma megalópole global; nas ruas do Rio, a vida imita a arte que imita a vida, policiais e traficantes travam duelos épicos num verdadeiro Tropa de Elite; no Nordeste, o inesperado desenvolvimento industrial; no Sul, as inesquecíveis Giseles, as douradas germánicas made in brazil a desfilarem languidamente as suas Havaiana. Em contraste, a Portugália sacode-se para não se deitar em berço esplêndido, estagnada por uma crise que não é só sua, engolida por um euro-sonho até então infalível.

Mas então porquê Portugal? Pergunto eu à brasileira do sul.

Testemunha dia a dia o que vê. Acompanha os números que falam. Convive com a gente que é “a cara, os pais e os filhos dessa realidade”. A antiga colônia que cresce e a velha metrópole que não pode encolher-se. A solução para o futuro, ou uma delas, encontra-se num passado interrompido: o renascer dos vínculos entre o Velho e o Novo Mundo. Ou, melhor, o nascer de novos outros vínculos entre brasileiros e portugueses, em que a maturidade e a reflexão dialoguem com a ousadia juvenil e frenética. Reinventemos o verbo. No início, era só ele. Hoje, há a comunicação.