Felicidade

[dropcap] M [/dropcap]etade sonho, metade certo.

Branco. Só branco. Tudo branco.

Há dias assim, onde num tempo mágico a amizade ganha formas tácteis, perfeitas e incolores. Os corpos preparavam-se, alinhando a alma, arrumando as inquietações, afinando os silêncios.

Atravessando o altar da celebração, os olhares podiam ver mais longe: Através dos corações, das linhas da mão, dos pássaros luminosos, da música e do calor do sol.
Só era milagre porque nenhum de nós percebeu. Riamos muito ao ritmo do sul, na cama partilhada. Era o tempo das nossas vidas. Cada minuto feito da matéria intangível da beleza. Metade certo, metade sonho, e tudo inteiro, vida.
(…)
Som. Música. Vinho.
(…)
Agora o sol, desenhava outro contorno, tombando lento a poente, entorpecendo os ponteiros, enganando as horas. Chegou a parar. Cada minuto pôde ser infinito.
(…)
É um navio de carga – dizia um de nós – olhando, os olhos de todos e, quase místico, a linha do horizonte – “Está cheio dos nossos sonhos.”
O porto tinha desaparecido. Tocaram à campainha. Uma mulher muito pequena, de olhos grandes e luminosos, trazia um envelope que era para todos. Os pilotos da barra escreveram um telegrama – anunciou – demitiram-se todos. A carga é nossa!”
O cargueiro ancorado rodava agora ainda mais lentamente no sentido contrário à vontade do relógio. Tudo podia recomeçar.