O fim do Estado de Graça

Até agora o sucesso deste governo assentou em três pilares fundamentais. A habilidade política do primeiro ministro, uma boa estratégia de comunicação e sorte.

A economia portuguesa mostra indicadores favoráveis, a “Geringonça” garante paz social, as greves são apenas para inglês ver, Marcelo é um dos principais apoiantes do governo, a oposição, nomeadamente Passos Coelhos dá tiros no pé a toda a hora, o PIB é o maior de sempre nos tempos da democracia, os turistas chegam em barda de todo o lado e até a agência Fitch promete tirar-nos de lixo. Portugal está na moda. Tudo é maravilhoso. O mundo é perfeito. O povo gosta e era bom que fosse sempre assim. Mas não é. As notícias deste verão são um barril de pólvora e o pavio está mais curto que nunca.

Vamos por ordem. Ainda os incêndios não tinham sido extintos e já os jornais e as televisões se enchiam de outras notícias promovidas pelo governo. A comunicação a funcionar. Ato contínuo o PM pede uma avaliação da sua popularidade após os incêndios. Mas logo depois, a sorte falha de novo e, com o escândalo do roubo de material de guerra em Tancos, fica mais tudo mais difícil.

O estado de graça de António Costa, a banhos em Espanha, levou um rombo do tamanho de um rocket, e isto é um facto.

O cenário não é animador. É muito provável que este ano ainda voltem a existir grandes incêndios. São furta da época e os meses mais fatídicos para Portugal no que toca aos fogos ainda não chegaram. Ainda a procissão vai no adro e já vivemos a maior tragédia de que há memória. Agora é estatística.

Os incêndios podem vir mesmo a ser o tal diabo para António Costa de que tanto se falou e, nunca como nos próximos 3 meses, o primeiro-ministro vai precisar que caia chuva do céu. Mas enquanto ela não chega a Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa já anunciou um reforço de 750 operacionais para as zonas “mais críticas de suscetibilidade” de incêndio.

Se o governo não apostar todas as suas fichas na prevenção corre o sério risco de sair queimado nas próximas eleições. O primeiro teste será já no dia 1 de outubro quando os alcaides forem a votos. E como a casa roubada se chegam trancas à porta, até para as duas antenas móveis que faltaram em Pedrógão, lá apareceu o dinheiro.

Para completar o ramalhete Costa ainda tem outro problema grave. O roubo de Tancos. Alguns meios de comunicação social adiantaram que foram roubados mais de 50 quilos de explosivos, 22 bobines de fio de metal para bombas, 44 lança-rockets anticarro, mais de 100 granadas de mão ofensiva, 1.450 munições de calibre 9 mm entre outros. Uma guerra pegada. Sem sorte não há mesmo comunicação que possa valer! O estado de graça de Costa, a banhos em Espanha, levou um rombo do tamanho de um rocket, e isto é um facto. Pim Pam Pum.

Mesmo que o chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), Rovisco Duarte, proceda à exoneração temporária de cinco comandantes – que vigora pelo menos até serem concluídas as averiguações ao furto de material de guerra – a situação é desesperada. A segurança sobe para níveis há muito nunca vistos, há mais Marines americanos a aterrar em Figo Maduro e a Procuradoria-Geral da República disse, na solenidade de um comunicado, que “estão em causa, entre outras, suspeitas da prática dos crimes de associação criminosa, tráfico de armas internacional e terrorismo internacional”.

A estratégia de comunicação voltou a falhar em Tancos. Na televisão o CEME admitiu mesmo a fuga de informação. O Exército Português não quis divulgar a lista de material de guerra roubado em Tancos, mas um jornal estrangeiro, o “El Español”, sem protocolos patrióticos, publicou a lista com a descrição dos materiais roubados e a sua quantidade. Outra fuga de informação que está por explicar.

Menos de um mês depois de ter sido considerado o terceiro país mais seguro do mundo pelo Global Peace Index, os últimos acontecimentos atacam-nos onde mais dói. Portugal perde, aos olhos da comunidade internacional uma das suas maiores qualidades, a segurança.

O primeiro-ministro tem agora a mais árdua tarefa pela frente desde que chegou a São Bento. Sem sorte e com a comunicação a fraquejar, vai precisar de mais habilidade que nunca. Por enquanto os parceiros de “Geringonça” ainda estão com ele, mas o  verão vai quente e lenha está seca.