Folia

Era uma rua estreita, de empedrado confuso e aleatório. No meio dela havia um trilho aguçado pela luz que apontava uma espécie de caminho feito por cima de pedras lisas.

Aquela era  uma terra de duas dúzias de ruas indecisas no cimo  do maior outeiro que havia  antes do mar. A povoação topava o antigo lugar de uma estação de comboios sempre em eclipse. como já acontecia quando pela primeira vez  lhe conheci os relevos e era muito novo. Teria apenas sete anos e acabava de me tornar aprendiz do meu mestre.

Hoje, já com olhos diferentes, reparo no desenho diáfano das outras coisas que até então não tinha compreendido.

Era uma manhã fria de primavera, cheia da luz obliqua dos manuais. Íamos falar, não sei bem de quê, não sabia bem com quem, de livros. 

Os visitantes entravam pela porta do arco redondo que atravessavam sempre com admiração. A vida é sempre diferente quando é preciso atravessar uma muralha através de uma porta medieval. 

Mas eram sempre os livros, e aqueles que mais tarde haveríamos de encontrar, que transbordam a vida silenciosa e as flores do mal, a mensagem, as mulheres do meu pai e o vol de nuit do senhor Fradique Mendes. 

Afinal estávamos em Abril e era tempo de tudo começar.