Foliar

Sobre o “Folio – Festival internacional de Literatura de Óbidos” que hoje começa na Vila Literária


 

Gosto de sentir minha língua roçar a língua de Luís de Camões – cantava o Caetano – Gosto do Pessoa na pessoa, Da rosa no Rosa, E sei que a poesia está para a prosa, Assim como o amor está para a amizade. Fala Mangueira! Fala!

E eu aqui, cheio de trabalho a pensar no Folio que começa amanhã e como se vão juntar lá todas as ideias e escritores e autores e ilustradores e fotógrafos e cantores; é a língua toda numa terra linda; e essa terra é Óbidos; e eu nem tenho tempo para pensar o bom que seria estar já lá.

Eu, cheio de ralações a pensar como terminar as pontas soltas deste dia, desta semana, deste mês, deste ano. Mas que dia é hoje? Ai, ai, que o Folio é já amanhã.

Estou aqui a ler o Agualusa que deve estar como nós apertados com a alma em água por causa de ter de curar escritores aqui e não poder curar as greves de fome dos cantores no sul. Ele que sabe as latitudes de cor.

Estou aqui a imaginar o Pinho e o seu braço teimoso levantado à moda dos profetas bíblicos criando bibliotecas nos templos, nos mercados e na alma das pessoas. Como se o paraíso fossem só livrarias e os anjos todos escritores e o inferno também era o que ele quisesse desde que se pudesse lá ler devagar.

Estou aqui a pensar no Humberto a mudar a história da terra dele para páginas, novos capítulos e letras, tudo sonetos e poetas. Cada rua já com história mais um verso e mais memória. Tudo a correr, atrás de um livro de “Sheiks” sem arábias que nunca caem do tapete voador.

Estou aqui a saborear a abóbada em que a Celeste cruza incessantemente o firmamento à procura da luz simples de todos os dias acreditando que só é possível fazer as coisas com as quais é quase impossível sonhar.

Estou aqui a sorrir à Anabela. Que só me dá para isso quando olho para ela a literar, a foliar, a recriar, a inventar, a língua nossa todos os dias como se os emails fossem todos poesias.

Estou a aprender com a Vitorino e a Calçada. Que os livros educam, são saber, não só palavra.

Estou aqui a rir-me da Julita que se está transformar sem saber na primeira folha de Excel humana que consegue beber gin tónico sem desbotar as paredes quadradas das células. Um feito cibernético que ainda há de ser Nobel da saúde.

Estou aqui a ver as ruas da muralha. Que de cima vê-se melhor. Lá está o David a guardar o portão do alcaide e a arquitetar outros milagres. Serena a lady Susana e a menina Vital desenham caminhos no papel e em digital. E os cavaleiros a lutar por elas numa távola quase redonda: Libório, Escada, Romão, Ferreira, Lança. Assim nunca vai haver apocalipse.

Estou aqui a reler as notas competentes da Sofia, os tesouros quase literários da Rute, os bentos posts e tuítes da Sueli… e as intermitências certeiras do Keul. Toda a gente a literar.

Estou aqui a lembrar-me da praça do comércio no Arcada do Pessoa. Era o começo do verão. Um cara com jeito desajeitado chega à boca da cena e se anuncia: eu sou o Juca. E era. O ministro da cultura do Brasil.

Ao fundo da tarde ensolarada via-se o mar. Pela mira das colunas do cais adivinhava-se o caminho. Vamos disse ela com um aceno? Vamos… temos de ir, ainda o conseguimos apanhar.

Eu vou já de maneira que tudo me parece um sonho. Tudo é folio-folia. E pura ficção.


 

Originalmente publicado no Diário de Coimbra  em 14 de outubro de 2015


Obidos vila lietrária
Obidos vila lietrária