Escritor para redes sociais: Precisa-se!

Um cartaz anunciava na montra de um café: “Escritor de redes sociais: precisa-se”.

Não era empregado, nem barman. Nem cozinheiro, nem vendedor. A vaga era para o facebook.. Condições de acesso: Inglês e smartphone. Como o café era chique também pediam “competências de Linkedin, na ótica do utilizador” mas era só preferencial.
Ao lado do cartaz, outra montra. Umas cinco dezenas de jovens, cada um de gadjet na mão (alguns gadgets eram mesmo dos grandes) e auscultadores na cabeça faziam uma fila que contornava o Quebra Costas e se atirava para o largo da Sé Velha. Iam todos para a entrevista.

Na rua, na vigência da espera, ningué se falava – ouviam-se apenas os pneus dos carros a raspar pedras milenares na calçada da praça e uns piiis-pi-tzóing-tzóiing-oui-uís digitais quando algum headphone se distraía da respetiva orelha.
Os moços iam entrando, um a um, pela porta do café como se fossem emails a cair no inbox da caixa de correio. Plim, plim, plim; cantava um alarme digital a cada vez que um candidato atravessava a porta.

Lá dentro era penumbra. Uma pequena mesa redonda, de tapo de plástico, com duas cadeiras de esplanada. Uma estava ocupada pela dona do estabelecimento. A outra era para o candidato. Em cima da mesa havia um computador portátil virado para a patroa e, ao lado, um ipad com o ecrã virado para cima.

– “Nome?” perguntou a senhora com uma voz sonora e sumida, gasta por anos de shots de vodka atrás do balcão. Tinha a tez avermelhada e via-se-lhe no peito decotado um enorme sinal que parecia a marca de um escaldão de fim de semana. Era a dar para o gordito. Escrevia o nome de cada candidato numa folha de exel, apontava com o indicador para o ipad e dizia pausadamente: “pegue no seu telefone e faça-me um post viral sobre o que aí vê”. Invariavelmente, de 10 em 10 minutos o apito da farmácia chamava o próximo e a cena repetia-se.

A porta fechava-se às 8 da noite depois de ter estado aberta todo o dia. Era o quarto dia de um processo de casting social que ia durar duas semanas. Havia miúdos, gadgets e posts que nunca mais acabavam.

No último dia lá escolheram um candidato, precisamente o último. Uma moçinha franzina e loira que tratava a senhora por “Vó”. Era sempre ela que acaba a gerir as novas comunidades. “Acabadinhas” de criar.