A grandeza do futebol

Do que nós gostamos, é de bola! E a bola vem aí. Da boa. De Ronaldo para cima. No próximo mês vai ser um fartote de alegria e pontapés na bola. Mas sobretudo vai um mês para esquecer, para nos esquecermos do resto. Viva o futebol. Viva a grandeza do futebol.

Quando escrevi estas linhas a nossa seleção está a ser recebida em Belém pelo presidente da República. Transmitida em direto por todas as televisões, a audiência de Marcelo a Ronaldo, não é, nem pouco mais ou menos, uma reunião normal. É uma coisa da bola. Com a grandeza da bola.

Vai haver um jantar, um passeio descontraído pelos jardins e todas as conversas da praxe. Jogadores e comitiva em amena confraternização vão trocar cromos, sob os auspícios das glórias do passado, as venturas do futuro e as câmaras de TV. Foi lindo não foi?

Se vieres equipado jogas

Há uma história de que me lembro sempre nestas alturas que, embora por outros motivos, cabe como uma luva ao universo do futebol e ao dia de hoje. A narrativa original é sobre os adeptos do Belenenses nos jogos em casa.

Havia sempre tão poucos espectadores que, um dia, para fazer face às dificuldades, a direção encontrou uma forma original de aumentar o desempenho financeiro e desportivo do clube. Nos dias de jogo passou a afixar um preçário original.  À porta da bilheteira lá estava o escrito. Adultos: 20 euros; Crianças e reformados: 15; Sócios: 10. Adepto com cachecol: 5; Adepto com camisola: 2 euros. Mas por baixo a letras garrafais podia ainda ler-se: “Adepto equipado joga”.

Marcelo, que percebe bem a importância do futebol na nossa sociedade, quer entrar no jogo. Vai querer equipar-se e jogar. E com ele o primeiro ministro, o presidente da assembleia e todos os homens públicos que virem uma chance de tirar uma selfie e marcar um golo com os ídolos nacionais.

Ontem em Belém também foi assim. Não por causa das necessidades da seleção, que felizmente tem dinheiro e bons jogadores, coisa que o clube do restelo não tinha, mas por motivos da agenda política. É nestas alturas que percebemos a importância ímpar que o futebol tem na nossa sociedade.

Os estádios e os ecrãs de televisão são hoje em dia os herdeiros da arena Romana, onde o povo ia libertar pulsões e violências sem medo de repressão. Nas arenas havia pão e circo.

Agora, vinte séculos de civilização depois, como aos líderes já não cabe oferecer vida ou morte à multidão, todo a atenção é dada aos novos gladiadores, os futebolistas, junto a quem todos querem aparecer. Os jogadores, amados pelo povo, são símbolo de uma popularidade a que todos se querem colar. São o pão e o circo da modernidade.

No tempo complicado que vivemos — em termos sociais, políticos e económicos — com muitas lutas e descontentamentos a acontecer na rua, este Europeu de futebol vem mesmo a calhar.

A grandeza do futebol

Este mês vai ser uma espécie de conjugação entre uma anestesia geral e uma grande sessão de Spa coletivo. Vamos ter fisioterapia localizada para alma, cirurgia plástica para a confiança, sessões de hipnose coletiva na carteira e massagens tântricas no ego. Vamos ficar de alma lavada. E se, como o nosso selecionador tanto apregoa, ganharmos o EURO, ninguém nos vai calar. Nem a senhora Merkl, nem o Dijsselbloem, nem aquele alemão em cadeira de rodas. Ninguém.

É esta a grandeza da bola.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra