Inferno digital

Agora faz mais frio e é mais claro. Lá fora, na rua, mas também nos nossos corações. O inverno é claro por dentro como um falso verão, como um judas traidor de verdade, que nos afasta do quente escuro das conversas a dois e a três e a tenaz a remexer o borralho.

Cada vez o Inverno vem mais tarde e é mais forte. São cada vez mais luminosos os dias passados ao frio. E era tudo mais fácil quando a invernia vinha ao borralho, noite às 4 e meia da tarde e depois, lareira e conversa. De tenaz na mão, a virar tições à volta das gargalhadas da miudagem; e ninguém se importava (até queriam) ir para a cama mais cedo, porque o dia era escuro e no ó ó estava mais quente. E aí, ficávamos todos a falar, a ouvir os mais velhos remoer memórias a preto e branco de outros invernos menos frios e mais escuros e a fazer delas histórias quentes e coloridas. Verdadeiras e de encantar.

Agora não é nada assim. Vai fevereiro a meio, tomba-se a luz no horizonte às seis da tarde e as luminárias arrefecem cada vez mais nítidas e impessoais na claridade húmida destes invernos suaves que o nosso presente digital agora tem.

Andamos todos trocando a tenaz e o tição, as histórias e as lareiras, por telemóveis modernos, essas malvadas máquinas de indicar, sempre de indicador a bater no vidro, tap, tap, tap, umas mini janelas de algibeira que nos emudecem para os outros e nos fazem bichos, não do mato mas ainda piores, uns bichos de facto (aqui o acordo falha e é mesmo preciso o cê), cheios de uma malvada frieza que nos condena ao silêncio “incumplíce” ou “descumplíce” — nenhuma destas palavras existe mas não consigo usar outra; “antagonista”, ou “concorrente”, ou “adversário”, ou “émulo”, designam pessoas que nunca nos deram esperança, seria injusto. Melhor seria “traidores”, não fosse o facto da cena se repetir todas as noites à hora da lareira que agora já não é uma conversa suave mas sim tap, tap, tap, um campo de batalhas mudas e à distancia. E nem mesmo na Antártida o povo Inuit aceita dar guarida aos traidores para os salvar da noite glaciar.

Tudo porque o frio agora nos parece claro e acreditamos que podemos ver melhor o que nos rodeia. Mas é mentira. Antes o outono é que era o inverno e o inverno quase uma primavera anunciada. Agora a primavera vem sempre fria e cheia de rigores e no verão às vezes até chove e quando os dias começam a minguar está sempre um calor que não se aguenta.

Se fossemos uma borboleta éramos antes do casulo. Seres ao contrário, antes de o ser, como uma pescada piada de lareira, que acho que nem existe na vida dos meninos de agora, tap tap tap, a jogar à bola sem bola, a falar sem boca, a ouvir em silêncio as coisas que lhes parecem boas só porque não têm de se responsabilizar por elas.

Agora faz mais frio e é mais claro. Lá fora, na rua, mas também nos nossos corações. O inverno é claro por dentro como um falso verão, como um judas traidor de verdade, que nos afasta do quente escuro das conversas a dois e a três e a tenaz a remexer o borralho. No ecrã claro, janelinha portátil digital, só há frio e gelo à hora da lareira. Uma luz falsamente bela que suga, puxa, saca, come e derrete tudo à sua volta, que é o que está no meio de nós.

Olho para o lado e sinto no meu indicador, tap tap tap, uma dormência breve. Lá fora ainda é claro e cá dentro está um frio capaz de me matar.

É tão frio é o que nos une como o que nos separa.

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