A Inglaterra fica

Fazer futurismo não é recomendável mas as estatísticas estão a meu favor. A Inglaterra fica.

Faço uma análise aos dados, relaciono-os e interpreto-os, estudo as estatísticas e os comportamentos, ouço os atores sociais, faço o meu estudo de intelligence – aquela coisa em que me digo especialista – e arrisco. Os ingleses vão votar em ficar na União europeia porque é melhor para eles.

As hipóteses de isso acontecer são quase de 3 para 1 em análises económicas e ainda mais favoráveis nas casas de apostas. Assim sendo a Inglaterra fica.

Mas  agora é que é! É que vamos a votos. Yes or no? Por favor, please, Digam sim! Without you, como é que nos vamos arranjar? Please remain. We love you. Inglaterra fica. Está nas mãos dos súbditos de sua majestade, literalmente na ponta dos vossos dedos. The future of  Europe in the tip of your fingers. E por conseguinte o futuro do mundo inteiro.

Espero que os nossos amigos ingleses votem permanecer porque, apesar das enfermidades europeias que são muitas – e feias – perder um dos seus mais influentes membros é voltar para trás no tempo e um erro imperdoável no mundo global. Voltar para trás é contra a civilização, é como incarnar de novo o espírito da idade média.

Por isso, com carinho, lembro aqui os ingleses como o nosso Almada Negreiros o fez, a fumar cachimbo. Bonacheirões cavalheiros e elegantes ladys.

“Os ingleses fumam cachimbo” de José de Almada Negreiros

“Allons enfants de la Patrie! Seeing Paris, os ingleses fumam cachimbo ! – Fumam de dia, fumam de noite – L’homme à la pipe: englishman!

Há cachimbos grandes, Cachimbos pequenos, Cachimbos solteiros, Cachimbos casados, Cachimbos de ópio, Cachimbos de barro! Os ingleses fumam cachimbo, É natural! As inglesas são de âmbar, E os ingleses fumam cachimbo! Cachimbo de moiro, Constantinopla, canal de Suez!

As inglesas são de cautchouc, São de Inglaterra! O meu avô fumava cachimbo e não era inglês! Era uma vez, um rei escocês que fumava cachimbo! Era de outra vez, um rei inglês, que não fumava cachimbo!

Conheci uma preta, Meio preta, Que fumava cachimbo, Casada com um inglês que não fumava cachimbo! Tinha três filhas, Três maravilhas, Eram cachimbos, Eram três cachimbos, Cada uma era um cachimbo!

Uma era loira, outra era morena, a terceira era amarela, E não havia mais do que três; Filhas da preta e do inglês, que não fumava cachimbo!

Mas fumava sem ser cachimbo, fumava Antoninos, excepto ao Domingo, que fumava cachimbo, mais a mulher que era preta e que fumava sempre cachimbo, mesmo que não fosse Domingo!

Tanto a preta como o inglês, tinham cara de cachimbos, e as filhas eram cachimbos, sinda com o preço da loja! Uma custava um tostão, s outra custava meio tostão e a terceira era reclame. Não era para vender, era de borla!

Apesar de tudo, os ingleses fumam cachimbo, E bebem whisky, E dizem All right, E dizem good bye, E dizem asneiras!

Já vi um cachimbo parecido comigo, quis comprá-lo, Não me venderam, Disseram que era o retrato de um egípcio! Tinha os olhos muito grandes e era forrado de verde! Toda a gente se fartava de rir com o diabo do cachimbo parecido comigo!

Há sempre muita gente Diante da montra onde está o cachimbo!

O meu avô, o meu avô Adelaide, não era inglês e fumava cachimbo! Tinha dez cacimbos: O primeiro cachimbo foi comprado no México a um pele-vermelha. Era um cachimbo forte, sabia andar a cavalo e tinha um anel de zinco vom as iniciais O.P.P.E.U.G.H, o que queria dizer: O Pai Plácido É Um Grande Homem!

O segundo cachimbo era de miolo de pão. Era um cachimbo para o guarda-portão que fumava cachimbo quando guardava o portão!

O terceiro cachimbo era de bambu e tocava flauta quando chovia no jardim! Usava óculos e esteve em Berlim, e não gostava de mim!

O quarto cachimbo era de sal, pouco conhecido em Portugal apesar de saber a sal!

O quinto cachimbo, era de tinta, mas infelizmente não sabia escrever!

O sexto cachimbo era de pau, não era mau, mas fumava inglês!

O sétimo cachimbo, era maluco, punha-se a rir e cantava como o cuco!

O oitavo cachimbo cheirava mal, era muito antigo e tinha pertencido a um fulano de tal de Portugal!

O nono cachimbo era a fingir, era a fingir cachimbo, tinha uma surpresa de Carnaval!

O décimo já não me lembra, mas aqui está a razão por que os ingleses fumam cachimbo!”

Depois de reler o Almada, e relembrar os ingleses, tenho a certeza renovada que o túnel entre Calais e Dover não se vai transforme no símbolo de um passado melhor que se perdeu.

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