A Internet não ganha eleições

De repente os partidos passaram a acreditar que a Internet é a chave da vitória. Especialistas são contratados pelos grandes partidos para gerir comunidades de internautas; há muitos estudos sobre comportamentos em rede e sites com métricas para todos os gostos. Mas o que é certo é que há “poucos” portugueses na Internet. E desses são ainda menos os indecisos a votar. A Internet é importante mas para ganhar eleições é melhor fazer outdoors.

Quer dizer, então o Google não sabe tudo? Sabe muito, mas normalmente diz muito pouco. E só responde bem a quem souber fazer as perguntas certas. Avaliar uma amostra onde se preferem “coraçõezinhos” a discursos, citações emolduradas a slogans e emojis com sorrisos a manifestos é uma luta desigual. Há muito mais “likes” em vídeos de gatinhos do que em candidatos a deputados. O Mundo já é digital. Mas para ganhar eleições ainda é preciso ser analógico. Se o leitor tem dúvidas basta ir à Internet para se esclarecer.

Se os partidos pensam que os seus eleitores são digitais estão muito enganados. Quem vê notícias online e fala delas nas redes sociais já decidiu em quem votar. Na internet das notícias há mais jornalistas que indecisos.

Quando se escreve no Google “a net dos partidos” o primeiro resultado é: Livre – Página Oficial. E na primeira página deste motor de busca não aparece nenhum dos partidos com assento parlamentar. Aparece a Esquerda net, o PDR – Partido Democrático Republicano e o Partido da Terra. O PS só aparece na segunda página, o PSD na terceira e o CDS/PP apenas lá mais para diante. Procurando “partidos na net” o resultado não é muito diferente. Não é preciso ter um mestrado em estatística para perceber que as amostras da Internet não representam o Mundo real. A Internet não representa a realidade.

Quando alargamos o âmbito da procura e pedimos ao Google para procurar “democracia digital”, “partidos na rede” ou “eleições online”; o que acontece é ainda mais curioso. Desaparecem todas as referências a partidos políticos e passamos a encontrar informação institucional. E a maior parte dos resultados chegam do Brasil.

Desconcertante? Nem por isso. Primeiro, porque os motores de busca favorecem as páginas de Internet mais recentes que já utilizam as últimas tecnologias – e essas são as dos partidos mais pequenos. Segundo, no caso de buscas mais alargadas, o “algoritmo” privilegia a quantidade de informação inédita disponível sobre cada assunto. No primeiro caso triunfa a novidade, no segundo a quantidade. Para cada realidade um enquadramento específico.

Façamos agora uma pergunta: e quem tem acesso à Internet em Portugal? Diz a ANACOM que em Portugal mais de metade da população não tem acesso regular à Internet. E se falarmos de Internet móvel com qualidade – a Internet de banda larga que permite ver fotografias, filmes e programas de televisão – o panorama é ainda pior. De entre todos os países da União Europeia, em utilizadores, os portugueses são os terceiros a contar do fim. Pior que nós só a Hungria e a Grécia. Apenas 46 em cada 100 portugueses têm Internet de “alta velocidade”. Muito menos que 77 espanhóis ou 88 súbditos ingleses.

É verdade que a Internet é das invenções mais extraordinárias de todos os tempos. É certo que ela alterou as relações económicas entre estados, as ligações emocionais entre pessoas e a gestão quotidiana do poder nas sociedades. Também é verdade que daqui a 200 anos, quando os historiadores escreverem a história da transição do segundo para o terceiro milénio, e em particular fixarem a narrativa do século XX, os manuais escolares vão dedicar mais páginas ao mundo da Internet e à conectividade global do que às incidências da Segunda Grande Guerra. Mas isso será apenas daqui a uns séculos.

Até lá, os que em Portugal pensam que vão ganhar eleições com votos ganhos na Internet estão muito enganados. Na Internet só estão os portugueses mais informados e, entre eles, os políticos e os jornalistas. Todos, ou quase todos com escolhas feitas e decisões tomadas.

Este ano, para ganhar as eleições ainda é preciso comunicar com as pessoas através de ecrãs de televisão, cartazes gigantes e jornais em papel. Como este.

Publicado originalmente dia 21 Setembro 2015 no JN