Jobs not Jobs

Jobs, este filme, é pouco mais que uma oportunidade de negócio para a Hollywood mas, infelizmente, uma perda de tempo para o espectador. 

Como o próprio Steve Jobs o seu primeiro filme biográfico – já está outro a caminho – nasce, como convém , envolto em polémica. Nada melhor para aumentar as vendas. Aliás, tão poderosa é a marca do fundador da Apple que o primeiro filme da sua vida , este “Jobs” é provavelmente o mais rápido filme biográfico da história do cinema.
Ainda nada estabilizou, nada arrefeceu; ainda as última criações tecnológicas de Stephen não saíram para o mercado (o que revela o seu verdadeiro génio criativo) já existe em cinema, o mais global de todos os meios de comunicação, a primeira tentativa de lhe fixar uma história. Ou será apenas uma oportunidade para fazer dinheiro?
Mas vamos ao filme. Ao objeto em si. Há mais preocupação em mimetizar a morfologia das personagens, fazê-las parecidas com o que verdadeiramente são do que cuidar de uma história que respeite integralmente os factos. E nem podia ser de outra forma. Quase todos estão vivos, se não mesmo todos, (à exceção do próprio Jobs) e a lógica do cinema precisa de histórias simples – tudo o que não foi a vida deste homem.
O fio condutor da narrativa deste JOBS é muito mais o aparecimento da Apple e dos seu produtos –  da primeira placa ao primeiro iPod – do que a própria essência deste homem que efetivamente mudou a forma como o ser humano se relaciona com a criatividade. O filme começa com uma prolepse, em outubro de 2001 – o lançamento do iPod – e tudo se passa antes desta data. Se pensarmos que o que verdadeiramente é inovador em Jobs é precisamente a tecnologia que revoluciona o negócio da música então podemos dizer que este não é mais do que um pré filme:

[bctt tweet=”O Jobs que interessa não vem aqui. “]

A caracterização do ambiente e dos espaços, Silicon Valley e os anos 70, os carros e as garagens, o amor livre, as drogas e Dylan estão bem representados  como seria de esperar numa produção desta dimensão. Os erros são mínimos – há  uma cena na universidade onde aparece um carro que será lançado apenas 10 anos mais tarde (um Chevy Cavalier azul); e na loja onde tenta pela primeira vez vender o seu computador aparecem monitores IBM que não existiam ainda em 1976 – mas por outro lado as cenas onde aparecem os “pais” e a garagem são feitas na verdadeira garagem da adolescência de Jobs.

Mas é precisamente à sua personalidade atormentada, em minha opinião a mais importante marca da sua capacidade criativa que no filme, infelizmente, é dado papel secundário. Uma única referencia ao facto de ter sido entregue para adoção e uma ou outra cenas familiares de circunstância são muito pouco para ajudar a conhecer um homem cuja grandeza resulta precisamente dos elementos da sua súmula criativa: Multiplicidade cultural, espacial e histórica que com violência impactam a sua vida – no sangue, alemão e sírio; na adoção, os  seus pais americanos; na educação, nas melhores universidades num momento de rutura epistemológica; no momento histórico; drogas e rock & roll, na geografia; Silicon Valley, onde e quando acontece a última revolução tecnológica da humanidade.
Steve Jobs, o homem, é um resultado quase alquímico de raiva, criatividade, emoções, empreendorismo e sorte. Jobs, este filme, é pouco mais que uma oportunidade de negócio para a Hollywood mas, infelizmente, uma perda de tempo para o espectador.