O louco da colina

Ter dívidas é uma coisa séria, mas nem sempre é uma coisa má. No caso presente sem haver esta dívida ficávamos a perder.

Como na vida, o bom é o mau são a mesma coisa e ficam sempre no mesmo lugar, percebemos facilmente que dívida e crédito nunca se anulam totalmente. Há sempre um saldo.

Estou a dever esta prosa desde fevereiro e antes que o ano se fine quero pagar a promessa. Esta semana voltei a aceitar um convite, daqueles que nos fazem correr quilómetros até ao desconhecido só para o encontrar.

Há pessoas que mudam as nossas vidas e a história que vos vou contar é sobre uma delas. É uma história simples. Sobre como a vida se alinha melhor em torno daqueles homens que fazem dos sonhos e da alegria o seu modo de vida.

É uma história sobre aqueles poucos – so very few – que dedicam a vida apenas a causas impossíveis e vivem os dias apenas na esperança única de que o seguinte mude todos os outros que ainda não nasceram.

É uma história sobre todos os loucos que vivem em colinas e olham delas para o resto do mundo como se todas as tentações não passassem de disso mesmo, de uma pequena colina de onde podes olhar melhor as montanhas. Para os perceber não vale a pena convocar mitologias antigas, santos ecuménicos ou algoritmos digitais, mas apenas vontade intrínseca.

Também preciso de vos contar como o olhar dele brilha na presença dos amigos ou como é enorme o seu sorriso quando nos conta o seu último plano ou o próximo projeto.

Devemos sempre respeito e admiração àqueles que nos ensinam. Aos nossos pais que nos mostraram o mundo, aos nossos filhos que nos ensinam a viver em paz; mas muito mais aos nossos amigos que nos acompanham na viagem da vida e que escrevem as páginas da nossa biografia imprescindível.

Aprendi com ele que as coisas nunca se apresentam como esperamos e acabam sempre por evoluir de forma inesperada. Por isso não vale a pena fazer mais planos que aqueles que a vontade pode alcançar. E acreditem, nunca são muitos dias para a frente.

É por isso que quando alguém inspirador se atravessa no nosso caminho é obrigatório tomar o fôlego necessário para ouvir e esperar.

Obrigado por me ensinares. Devia-te este texto. Mas ainda bem que a primavera não mo deixou escrever. Sem o calor do verão e o regresso do frio não to podia fazer assim.

 

Publicado originalmente no Jornal de Notícias dia 19/11/2017