O lugar da Paz

De nada serve a Portugal ser o terceiro país mais seguro do mundo, se vivemos no planeta mais inseguro do Universo. Não é vitória que se cante.

Eu até já tinha alinhavadas umas quadras ao gosto dos santos populares e ia para a rua marchá-las de manjerico na mão.

“Lá vais Portugal/
és quase o primeiro/
país mais seguro/
do mundo inteiro//

Tirando vulcões/
esquecendo carneiros/
nas Informações/
somos os primeiros”.

Mas não. A minha alegria ficou contaminada pelo clima. O Trump pirava-se em Paris. O mundo ia enegrecer.

Achava mesmo que não ia voltar a falar de Trump, sobretudo depois de o ter comparado ao Bruno de Carvalho, mas o homem consegue-me fazer descer sempre mais baixo.

Foi assim que, na mesma semana em que Portugal subiu ao terceiro lugar do Índice Global da Paz, ficámos igualmente a saber que o nosso planeta Terra vai descer para último no Índice de Viabilidade dos Planetas. Ordens da América.

O Índice Global da Paz é um projeto do Instituto da Economia e Paz, sedeado em Sydney na Austrália e que, desde 2007, classifica os países independentes pela sua “ausência de violência”. É um índice composto por 22 indicadores que vão desde o nível de gastos militares de uma nação até às suas relações com países vizinhos e ao nível de respeito pelos direitos humanos. Assenta numa série de fatores que são determinantes para a paz, como os níveis de democracia e transparência, de educação e de bem-estar. A equipa que colocou Portugal no pódio dos mais pacíficos usou como dados os últimos números disponíveis das mais respeitadas fontes de informação mundiais como são o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o Banco Mundial, muitos departamentos da ONU e Institutos de Paz e a unidade de Inteligência da revista The Economist.

Já o Índice de Viabilidade dos Planetas não existe. Porque planetas habitáveis, desses com água líquida, rios, mares, oceanos e plantinhas a fazer fotossíntese, que se saiba, só há um. Mas devia existir, porque faz falta que alguém pense nisto.

Mesmo em países péssimos como o Afeganistão, a Síria ou o Iraque, onde mais de metade da riqueza nacional é destinada à guerra, se pode respirar. Mas de nada vai adiantar a Portugal, à Nova Zelândia e à Islândia, serem os mais pacíficos do mundo se a poluição nos matar a todos.

Originalmente publicado no Jornal de Notícias