O Manuel Alegre e o Pereira triste

Esta semana Manuel Alegre ganhou o prémio Camões. Parabéns! Aos oitenta e um anos o político militante, escritor de rasgo, poeta de génio, estava finalmente no seu posto. Onde a história o há de guardar. Como o poeta da liberdade.
Na mesma semana o chefe das secretas perdeu o lugar. José Júlio Pereira, embora mais tarde do que devia e sem a frontalidade que agora todos sabem que não tem, disse não poder aceitar um cargo que não podia exercer. O homem que guarda os segredos da República não pode ter pecados de cobarde.
Muitos anos depois de um caso triste em Timor Leste, o embaixador Pereira, aceitou o convite para ser chefe do SIRP (Serviços de Informações da República) esquecendo a única coisa que um espião não pode esquecer: Nas informações o mais importante é a memória. O posto nunca seria seu.

A liberdade de expressão e o escrutínio público, por si só, justificam a importância vital de uma comunicação social livre e independente.

Mesmo os que dizem que Manuel Alegre professou a “esquerda caviar” na sua vida pública o aceitam como um dos maiores autores de língua portuguesa. E, por certo, poucos questionam que o poeta tenha, para sempre, o seu nome na lista curta dos poucos que ganharam o prémio Camões.
José Júlio Santos Pereira e Manuel Alegre estão nos antípodas um do outro. O “cobarde” e o “combatente” meramente se encontraram na agenda pública, na mesma semana em que o destino lhes traçou a história. Por isso não é uma comparação, apenas uma coincidência. Um sai ter sido; o outro vê o seu nome inscrito para sempre na lista restrita daqueles que um dia podem aspirar ao Panteão.
Mas se assim é, porque que diabo então cabem estes dois homens no mesmo texto? Pergunta o leitor questionando (mas sem motivo) o sentido desta crónica domingueira.
Se reparar, compará-los é um exercício mito inteligente. Serve para perceber que a liberdade de expressão e o consequente escrutínio público, por si só, justificam a importância vital da existência de uma comunicação social livre e independente. Esta é uma das maiores, senão mesmo a maior, vantagem da democracia.
Num lugar onde isto não aconteça, por exemplo na Coreia do Norte ou noutra ditadura qualquer, com muita facilidade se daria o prémio ao torcionário e exílio ao poeta.
Afinal, também aqui mesmo em Portugal já foi assim, não foi?