A minha Rádio Universidade de Coimbra


Era assim: entrávamos de manhã na Rádio Universidade e já não saíamos. Ficávamos agarrados ao éter como se ele fosse uma droga de cheiro e de cola. Um pó bom. Uma injeção de adrenalina e prazer. Tudo droga boa.

O bom da rádio é que o som não envelhece. A voz não se magoa nas esquinas do tempo. Ela é sempre jovem. O meu pai diz que só tem boas memórias dos meus tempos da rádio, quando me ouvia nas K7’s que lhe mandava pelo correio para Castelo Branco, porque então, o emissor era pequeno e a internet não andava por cá.

Quando cheguei à RUC pela primeira vez, o Fausto Silva já lá estava – eu acho que ele deve ter pelo menos 100 anos – a tua mulher linda de cabelos pretos estava sentada numa cadeira no corredor do terceiro piso, a falar músicas com sotaque aos caloiros que chegavam. Juro que ta cobicei, Fausto. Mas ela era uma Santa da Casa, e com os santos nunca se brinca.

Quando Cheguei à RUC estava lá o João José a ser meu pai, e padrinho, e amigo e iniciador em muitas artes que entretanto aprendi a amar. Eu cá dou o óscar de carreira ao JJ – que se lixe do Di Caprio – ao pé de ti ele tinha muito menos graça.

E havia os cursos. Acho que ainda há. De Programação, Informação e Técnica – os malvados técnicos – guardiões da antena, sempre armados em complicados puritanos. E haviam multimédias, e era de manhã que se comia a tia, e estranhos hálitos e beijos da mulher a dias, e perdoem-me as pessoas que ficaram esquecidas como dizia a canção. Era uma rota de tormentas. Um desprimor do deleite.

[bctt tweet=”“Nada de essencial acontece na ausência do som”. Deve ser por isso que vocês ainda aí estão putos. “]

Mas sobretudo éramos novos como vocês são agora – Oh! diretores e presidente; Oh! jornalistas; Oh! miúdas da programação, Oh! gloriosos malucos das máquinas falantes, que sabeis escolher o som nesta era de imagens.

Há uma coisa de que nunca mais me esqueci sobre o som. Dita pelo Jacques Atali, esse francês que era uma besta como político e um encantador filósofo: “Nada de essencial acontece na ausência do som”. Deve ser por isso que vocês ainda aí estão putos. A aprender as manhas do fluído etéreo, esse a quem os sentidos não escapam. Podemos fechar os olhos e parar de ver, não tocar e parar de sentir, não comer e parar de saborear, mas não podemos parar de cheirar (não, não é isso que quero dizer), nem de ouvir.

Quando cheguei à rádio eu era um menino. Saí de lá um homem. A saber o que queria fazer, que caminhos havia de trilhar. Não fosse a RUC e eu seria com certeza um engenheiro triste (e provavelmente abastado). Como assim não foi, sou, ainda hoje, um contador de histórias, volúvel e apaixonado. Na verdade foi por causa da RUC que realmente nunca cresci. É isso! O microfone tem pó de sininho que nos arranca a sombra e nos faz voar. Mas como é que eu nunca pensei nisso!

Agora falo para ti RUC. Menina dos meus olhos. Amor da minha camisola. Mãe da política e do amor. Tens trinta anos, pois sim. Isto do tempo é cá uma coisa! Olho-me ao espelho e vejo os meus cabelos brancos, uma barriguinha (pequena!), os meus filhos estão grandes pá! Mas se fechar os olhos e ouvir, és afinal, a mesma miúda gira e cintada, de grandes olhos brilhantes e felizes que ainda no século passado te passeavas pelos corredores do terceiro piso a meter-te comigo. Eras sexy, eras boa e partias-me o pescoço! Lol.

Contigo, miúda – Estou sempre no ar.

Publicado 2 de Março 2016 no Diário de Coimbra