Não sejam queixinhas

Os media são muito queixinhas. São os primeiros a relatar as transformações que acontecem na sociedade, mas, quando a mudança lhes bate à porta é sempre uma chatice. Parecem uma empresa startup, mas ao contrário.

Às vezes parece que todos ficariam mais contentes se alguém viesse anunciar: aqui a internet não entra! em vez de: vamos todos ser digitais e chegar ao futuro primeiro que a concorrência. Alguém tem ideias?

Mas a industria é assim. Como um paquiderme lento que abomina a mudança prefere continuar a imprimir as notícias em papelinho, todos os dias, para que o leitor as possa passear debaixo do braço nas manhãs soalheiras de primavera e a dona Maria lhes embrulhe um Pargo mulato para o almoço de domingo. Tudo coisas que já ninguém faz.

Isto ainda era conversa que se pudesse ter, mas há quase 20 anos, quando a bolha digital estoirou o Nasdaq de Wall Street. Mas agora? Perguntem lá a um miúdo dessa idade que sentido faz agarrar com as duas mãos um monte de folhas de mau papel para saber notícias? Uma coisa que não tem fones, nem vídeos, nem conversa com ninguém. “Old news”, que é uma coisa que um jornal não pode ser.

Para quem se quer sentar no Majestik a ler, a necessidade é outra. Até pode ser no formato de um jornal, por causa do estilo, mas o papel tem de ser bom e o conteúdo não pode ser imediatamente descartável. Na verdade, será uma obra de arte, que se guarda em casa como um livro, será um luxo que nada tem a ver com a necessidade de andar informado.

Quando uma forma de comunicação é ultrapassada pela tecnologia ela transforma-se numa numa manifestação artística. É sempre assim. Não há como contrariar este facto.

Aconteceu quando Giotto inventou a perspetiva, quando Daguerre inventou a fotografia, quando os irmãos Lumiére a puseram a mexer, quando os descendentes da família Sony levaram o cinema para casa e agora com a Netflix já nem precisa de antena ou cabo.

As notícias viajam sempre da forma que as levar mais rapidamente ao publico. Mesmo que as lógicas industriais resistam, quem mais cedo adotar (ou descobrir) a nova tecnologia, mesmo que às vezes erre, será o líder do futuro. Quem não fizer assim perderá tempo, poder e dinheiro.

Original publicado no JN, dia 22 de Abril