A nova era do Terror

Digo muitas vezes que é a internet que nos vai proteger da guerra com os nossos vizinhos. Simplificando uma argumentação mais complexa, a minha tese consiste numa crença simples: aos humanos é-lhes tão fácil odiar o desconhecido, como lhes é difícil odiar o que é próximo. Se antes era fácil odiar um espanhol – e até atirámos alguns pela janela – era porque eles representavam o desconhecido; agora seria impensável, “contra Castela, marchar, marchar”, ou achar mau o vento e o casamento, que vêm das terras de Cervantes.

Mas também é a internet que inventa a agenda global que põe o demónio – este sim de verdade – com meses de antecedência à porta de nossa casa. Foi assim que aconteceu em Manchester quando, no concerto de Ariana Grande, em quase tudo igual àquele onde acontece a história que vos vou contar, com meninos e meninas adolescentes a celebrar a vida, que o pior terror aconteceu.

Foi há poucos dias que, com a minha filha Carolina e as suas amigas, fomos ao MEO Arena ver o concerto do Shawn Mendes. Éramos quatro e foi uma noite memorável. A paixão das miúdas pela presença do ídolo, dava ao ambiente uma textura de folia imensa e alegria indescritível e, aos adultos, que ainda se consideram jovens, uma belíssima oportunidade de voltarem atrás no tempo, agora acompanhados pelos seus filhos, e almejarem de novo às sensações da puberdade. Aquele herói menino, que as há-de acompanhar ao longo da sua vida – agora os heróis de infância envelhecem com elas, já não é como dantes – foi o responsável por uma das noites mais divertidas dos últimos tempos. Shawn Mendes é uma destas estrelas mundiais que os adolescentes de todo o mundo adoram. Esgotam a lotação das salas de espetáculo onde vão atuar, no mesmo dia em que os bilhetes são postos à venda, às vezes mais de um ano antes do concerto.

Nos nossos tempos de globalização onde a conectividade permanente deixa as pessoas sempre juntas, estas são verdadeiramente as únicas vedetas capazes de almejar à universalidade. Nos tempos que correm, ídolo e fã têm sempre a mesma idade. Aprendem juntos, vivem juntos, envelhecem juntos. Não sei se é por imperativo do mercado, que assim fideliza os clientes para sempre e desde pequenos; ou se, pura e simplesmente, é porque há muito menos diferenças entre o artista e o espectador e m muito menos distância entre a plateia e o palco. Neste concerto, em modo de humor negro – bato três vezes na madeira, mas com humor pode-se brincar com tudo, não é? – pensei que se uma bomba rebentasse no MEO arena Portugal acabava. Porque era o futuro de Portugal, personificado na sua geração mais jovem e bela, que ali estava. Para meu pavor, duas semanas depois, esse impensável aconteceu mesmo, agora na cidade inglesa de Manchester. Não sei se é por Portugal ser pouco importante, ou se é, como alguns dizem, porque os mestres do terror têm os seus filhos a estudar no nosso paraíso à beira mar plantado. Mas o que é certo é que, cada vez mais, também nós não estamos livres que uma tragédia assim nos aconteça.

Um poeta de Coimbra, escreveu há muitos anos num dos seus primeiros livros de poemas – cito de memória – “a lança transporta na ponta o preço para quem contra ela avança”. E assim é, com as armas e a guerra como com o progresso. Lembro-me que no tempo em que o António Vilhena escreveu este poema, quase precisávamos de passaporte para ir a Espanha, não havia internet e o desconhecido estava mesmo ali, muito perto de nós, que então não podíamos ver mais à frente. Na prática, hoje, nada mudou. Continuamos a temer e a odiar o desconhecido como antigamente. Só que agora ele é transparente, inominável e está mesmo no meio de nós.

Ao pensar no que agora sentem os pais e as mães dos meninos que morreram em Inglaterra enegreço de pavor. Podia ter sido eu ainda há pouco. Podíamos ter sido nós. Mas isto é tão só o resultado do que fizemos durante anos, dos erros que cometemos por não termos partilhado a nossa riqueza e o nosso sucesso com as pessoas das periferias. Este é provavelmente o preço que pagamos por essa maravilha que é termos tudo. E tão perto, e tão rápido, e tão abundante.

Agora temos de estar mais atentos, ter mais cuidados e trocar mais informações. Mas sobretudo temos de continuar a acreditar que, apesar de tudo, o nosso modelo de sociedade, livre e democrática, é o melhor de todos. Mesmo que alguma coisa terrível, e longe venha o agoiro, nos aconteça também a nós.

Se perdermos isto de vista o retrocesso civilizacional está garantido.