O espião que ia para o frio

De repente Portugal está no topo da espionagem mundial. Ao que parece um espião português quase reformado vendia mesmo segredos da NATO a um russo até há pouco desconhecido, mas que agora já tem nome próprio. Será mesmo coisa de um 007 lusitano, ou uma intriga nos jornais?

Há histórias em que é difícil acreditar. Esta é a crónica de uma delas.

Um espião português caído em desgraça, há dois anos colocado atrás de uma secretária e vigiado pelos colegas que dele suspeitam, é apanhado esta semana, em Roma, a vender segredos da NATO a um espião russo que nunca ninguém viu. Importam-se de repetir? É que isto não bate certo.

Quem conhece o mundo da espionagem e dos serviços secretos sabe que esta história está mal contada. Mesmo que as relações oficiais entre NATO e Rússia tenham arrefecido com a crise da Geórgia em 2008 e quase congelado depois com a invasão da Ucrânia em 2014, os russos sabem certamente mais sobre a organização militar do Ocidente do que um espião português sob suspeita. Até porque americanos e ingleses, quem manda na NATO, não têm o hábito de partilhar informação relevante com os seus aliados periféricos.

Diz quem sabe que a informação que circula na rede segura da NATO é apenas a informação classificada que não compromete a segurança se for “agarrada”, e nem sequer é certo que exista no SIS uma ligação à rede segura da NATO. E acrescenta – “Quando o meu computador estava ligado a essa rede nunca lá vi nada suscetível de valer um tostão”. Na melhor das hipóteses a informação que o SIS possui sobre a NATO é recebida através do CISMIL (a secreta militar) o que torna ainda mais inverosímil esta trama.

Depois há o facto de toda a história ter sido tornada pública e corrido Mundo num ápice, numa operação mediática que está longe de ser normal nestes casos. Imediatamente foi revelada a identidade de um dos mais antigos espiões portugueses, Frederico Carvalhão Gil, de cuja vida se podem conhecer detalhes abundantes. Carvalhão tem uma página no Facebook desde 2010 (ainda ativa) onde publicava caoticamente de 5 e 5 minutos, quase tudo sobre países de Leste. Quem a visitar percebe mal como é que um cidadão tão ativo nas redes sociais possa andar a vender documentos a 10 mil euros a peça, quando o mais famoso traidor americano, o agente da CIA Aldrich Ames, vendia Top Secrets apenas por 50 mil dólares. Tudo isto se sabe sobre o português. Já sobre o suposto espião russo, que ninguém conhece, sabe-se apenas, convenientemente, que não tinha cobertura do seu país.

Por tudo isto é legítimo perguntar: se não eram documentos da NATO o que Carvalhão Gil andava a vender, o que é que o russo estava a comprar? E que segredos há em Portugal que ainda valem assim tanto dinheiro?

Publicado originalmente no JN