Extraordinário pode ser normal?

Esta foto pode ser manchete em todos os jornais. À meia hora de jogo, 3-0. Cristiano Ronaldo batia o record, e três mãos portugueses numa celebração histórica – e nem importa se foi combinada – acenaram (encenaram?)  toda a alegria lusitana no Allianz Arena – Pepe, Coentrão e Cristiano Ronaldo, cinco dedos em cada mão, 15 golos, quinze. O record de golos na liga dos campeões estava batido. Talvez para sempre.

A História informal do século XX e XXI tem no desporto, e na nossa cultura europeia, no futebol, o expoente máximo da agenda informal da sociedade. Herdeiros da tradição “gladiadora” e sanguinária da arena romana, o futebol e os futebolistas são o palco mais genuíno da história coletiva da vida privada da nossa sociedade: Povo, glória, beleza, força, poder e escape.

Neste palco os heróis não matam, marcam. E em casos muito raros e especiais fazem história. Privilégio. Esse momento é agora. Hão-de passar 100 anos até que outro Cristiano Ronaldo apareça nas arenas da modernidade, e mais mil para que esse volte a ser português.

Jorge Valdano, esse argentino prodigioso com a bola e as palavras, escrevia há mais de dez anos sobre Luis Figo – “ele faz o extraordinário parecer normal”. Sobre Cristiano Ronaldo podia escrever: O extraordinário nunca pode ser normal.