O Pesadelo de Bolívar

A Venezuela é um destino de emigração tradicional para os portugueses. Tudo o que de mau lá acontecer impactará de forma violenta a nossa comunidade naquele país sul americano.

Há uma década, o secretário de Estado, Fernando Serrasqueiro, dizia que havia uma razão simples para se ter muita paciência com Hugo Chavez, é que “havia quase meio milhão de portugueses a viver na Venezuela com passaporte válido, a um bilhete de avião de distância de Lisboa, um êxodo massivo para Portugal seria incomportável”. Tal acontecimento seria apenas comparável à vaga de retornados que teve lugar com o repatriamento das ex-colónias em 1975 e 76. Por isto as questões venezuelanas são tratadas com pinças pela política externa portuguesa.

Mas o que é que acontece na na Venezuela? A falência do sistema económico causada pela queda a pique do preço do petróleo? Ou tão só um “deja vu” político – desses que historicamente acontecem entre a ascensão e queda de um grupo de governantes oportunistas, que se apoderam da riqueza do seu povo através da ideologia fácil?

Hugo Chávez esteve 14 anos à frente dos destinos do país. Apostou numa revolução de aparência democrática e, com um inequívoco carisma, ganhou as eleições com 56,2% dos votos. Foi apenas o começo do engano.

Com papas e bolos se enganaram tolos. A ausência de uma elite estruturada, como acontece no Brasil, fez com que o “Chavismo” ganhasse uma dimensão híper-realista, à moda da mais delirante criatividade de barrocos escritores tropicais, ultrapassando de longe qualquer exagero que Lula e a sua entourage tenham cometido no passado recente das terras de Vera Cruz.

Que país é este onde não se conseguem distinguir as políticas de estado dos milagres sonoros da narrativa hiperbólica dos Cem Anos de Solidão? Em que os livros e os personagens de García Marquez são simultaneamente o programa e os ministros do povo de Bolívar.

Os elevados preços que o petróleo atingia no mercado internacional – e a cupidez da banca internacional que apostou nas dívidas soberanas como antigamente outras nações no mercado esclavagista –  incentivaram ruinosas medidas económicas. Mas tudo piorou quando o original deu lugar à fotocópia. Três dias depois da morte de Chávez, Maduro tomou posse como presidente interino, e as pedras lisas da ribeira de Macondo – o lugar mítico da saga dos Buendía – apenas se tornariam mais escorregadias e improváveis.

O 54º presidente venezuelano Nicolas Maduro, ex-motorista de metro, antigo presidente de sindicato, militante da liga socialista e cocriador do PSUV – Partido Socialista Unido da Venezuela, já era, desde o tempo em que Chávez esteve preso, uma das figuras mais controversas da sociedade Venezuelana.

Como seria de esperar, mal as vacas emagreceram, os venezuelanos foram confrontados com a tragédia. A asfixia do investimento privado, o controlo dos preços dos produtos, a inflação e uma profunda crise económica, trazem à tona a realidade até aí camuflada pelas hipérboles populistas atiradas a um povo pobre e inculto. O resultado é uma Venezuela mergulhada há mais de 3 anos num mais elementar desespero. Falta tudo, não há nada.

O discurso radical e apaixonado, feito de bandeiras de liberdade e promessas de um futuro próspero, desapareceu nas prateleiras vazias dos supermercados e das farmácias.

Hoje, muitos venezuelanos devem sentir-se como Simón Bolívar, n’ “O General no seu labirinto”, e com vontade de o citar: “Carajos! E como vamos nós sair deste labirinto?”