O primeiro grande erro do Bloco de Esquerda


A campanha do Bloco de Esquerda “Jesus também tinha dois pais” era desnecessária porque não tinha nenhum objetivo. Por isso desconsiderou, em alguns casos até ofendeu, a sua base social de apoio. Quando um partido desconsidera a sua base social de apoio é porque se sente no poder.

Catarina Martins depois de ter dito que o cartaz era humorístico percebeu que tinha de emendar a mão e aceitar o erro. Alinhou pelo que antes tinham dito a candidata presidencial Marisa Matias e o próprio Francisco Louça, fundador do partido.

– “O cartaz não foi compreendido e como não foi compreendido é um erro”, disse a porta voz do Bloco.

Há duas questões importantes sobre este assunto – não sobre o cartaz que Catarina antes autorizou – sobre ele está tudo dito, mas de natureza estratégica. A primeira é: Porque é que o BE agiu como se estivesse no poder? A segunda: Será que Catarina Martins admitiria o erro se Marisa não o tivesse feito?

Já la vamos. O conteúdo do cartaz, embora polémico é agora de certa forma irrelevante, mas a sua existência será, no futuro, um marco muito importante na vida do BE. Ele representa a primeira vez em que o BE agiu como um partido de poder e não um partido de combate. A forma e o tempo em que foi colocado representou uma atitude autoritária, quase vingativa. Essa forma de agir politicamente  está completamente em desacordo, e até em conflito, com aqueles que são os valores partilhados pela base social de apoio do BE. Uma população urbana, jovem, que não se revê nos valores vigentes na sociedade e nos poderes que até agora a representam, eles são o maior “capital” do BE.

Os eleitores do BE querem que as coisas mudem mas não desejam vangloriar-se dessas vitórias. São modernos, desejam a liberdade e prosseguir com as suas vidas. O BE agiu como se a vitória fosse o fim em si próprio e não apenas um meio para melhorar a sociedade. Esse é um erro fatal. Sentindo-se poder, os líderes do BE agiram como os políticos tradicionais. Cantando vitória, esquecendo-se das pessoas.

Mesmo que tivessem muita vontade de assinalar esta conquista (que de facto é) da sociedade portuguesa – a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, vem possibilitar que muitas crianças não tenham sobressaltos desnecessários na sua vida e cresçam ao lado dos que as amam – a forma como o fazem é reveladora de uma nova atitude.

Porque não era humor.  Era chacota. Parecia até uma revanche contra Cavaco Silva, ja defunto politicamente, odiado por todos, por ele ter obrigado, como última medida, a promulgação da lei da adoção ao caminho mais longo. E já agora por ter condecorado Sousa Lara.

Foi contraproducente e gratuito. É uma pedra que o BE atira aos seus próprios apoiantes. Entre eles há com certeza cristãos de muitas crenças e muitos católicos.

Este episódio vem também provar o poder de Marisa Matias. Os resultados das eleições presidenciais fazem com que o que ela diz tenha de ser ouvido. E ao manifestar-se antes da líder afirmando, primeiro que todos, isso é um erro quer também dizer, que tem uma palavra a dizer.

O primeiro ministro, António Costa, esfrega as mãos de contente.