O que é “Media Intelligence”

Media intelligence é a dimensão da capacidade que um indivíduo ou uma organização têm, para antecipar (ou influenciar) as notícias, antes do factos acontecerem.

O território

A canção do cantor britânico Elton John, universalmente conhecida, chamada “My song”, tem uma frase surpreendente: “It may be quite simple but now that it’s done”. Em português quer dizer qualquer coisa como, “Ai, agora que isto está feito é que te parece fácil (simples)”;  e carrega simultaneamente uma certa estranheza e admiração. Como se fosse um Ovo de Colombo,  qualquer coisa que parecia  óbvia mas de que ninguém se lembrou, ou intuiu, antes. Como dizia o cantor “essa coisa” (insight) que parece óbvio quase nunca o é.

Tudo o que assim sucede, resultando de deduções aparentemente muito simples, resulta, ao invés, de processos intricados que agregam múltiplos fatores e se conjugam de forma complexa. Este é o território do “Media Intelligence”

Um Exemplo

Mas vejamos um exemplo real de como as coisas podem acontecer. Os elementos de análise são a minha crónica semanal no Jornal de Notícias, um texto de opinião, escrito por um colunista num jornal diário; e uma notícia, escrita por dois jornalistas num jornal semanário o Expresso.

No dia 13 de dezembro de 2015 escrevi na minha coluna de domingo no Jornal de Notícias que António Costa tinha toda a vantagem na vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas Próximas eleições presidenciais. A coluna desse dia chamava-se: “O apoio de Costa a Marcelo“.

A tese defendida no meu texto (apenas opinião) foi esta semana  confirmada pelos acontecimentos. O Expresso deu A noticia na edição de dia 31 de Dezembro. Foi chamada de capa e ocupava toda a página 8 do primeiro caderno do maior semanário português.  :  “Como eles se dão bem” era o título da peça escrita assinado pelas jornalistas Angela Silva e Cristina Figueiredo.

Cronologia

 

13 de dezembro, JN

Costa quer que Marcelo seja presidente. E de preferência logo na primeira volta. A vitória de Marcelo vai unir o PS à volta de Costa. A de Belém ou de Nóvoa vão deixá-los em cacos.(…)

31 de dezembro, Expresso

(…)A relação entre Costa e Marcelo cheira a promissora Porquê? Porque vão precisar um do outro. À frente de um Governo ancorado em acordos com o PCP e o BE, António Costa sabe que ter Marcelo em Belém traz-lhe enormes vantagens.

13 de dezembro, JN

(…)Se Sampaio da Nóvoa ganhasse, Costa teria pela frente um filho zangado e triste com as promessas incumpridas do pai. O reitor de Valença seria uma dor de cabeça constante para quem primeiro lhe deu gás e depois lhe tirou o tapete(…)

31 de dezembro, Expresso

(…)Uma coisa era contar com Sampaio da Nóvoa se tivesse que governar com o apoio da direita, outra é precisar de alguém que o ajude a temperar as exigências dos “camaradas” de esquerda no Parlamento. Marcelo, pelo seu lado, já mostrou que na última etapa da sua vida política sonha ser, sobretudo, um fator de união. E a melhor maneira de o conseguir é ter pela frente o desafio de lidar com um Governo apoiado pelo PCP sem pôr em causa as pontes que sempre tentará manter com a sua família política.(…)

13 de dezembro, JN

(…) [se Marcelo ganhar] Costa ganha no PS, provando que era dele a solução certa para o país; que se não fosse por ele, não haveria uma alternativa em relação à Direita; e que, sem a sua capacidade política, o PSD continuaria no Governo e tudo ficaria como dantes: austeridade, privatizações e crispação social. Ganha também dentro do PSD: o professor é um dos mais fiéis inimigos de Passos Coelho e nunca terá interesse na sua recondução e por isso não vai dissolver o Parlamento. Cada dia a mais de Costa no poder é um dia a menos nas possibilidades de Passos Coelho. (…)

31 de dezembro, Expresso

(…)Marcelo, pelo seu lado, já mostrou que na última etapa da sua vida política sonha ser, sobretudo, um fator de união. E a melhor maneira de o conseguir é ter pela frente o desafio de lidar com um Governo apoiado pelo PCP sem pôr em causa as pontes que sempre tentará manter corn a sua família política..(…)

O processo

Visto sem a devida atenção este processo parece até apresentar-se fácil à dedução. Mas normalmente não é. Para que os insights (conhecimentos que resultam de um processo de utilização de perspicácia, perceção, discernimento, inteligência, rapidez de processamento, ou mesmo, intuição)  sejam de qualidade e não persigam caminhos menores ou mesmo erróneos, é necessário conhecer profundamente o background e o enquadramento de cada situação, as personagens que os habitam, o seu comportamento expectável e as exclusões admissíveis.

Depois de encontradas tipificam-se as variáveis relevantes através da análise minuciosa dos dados – data e metadata – encontrados nas várias fontes de informação, normalmente abertas, em suporte tradicional e online.

Só então, aplicando os modelos de “media intelligence”, podemos tentar “antecipar” o futuro.

No presente caso  o sucesso foi quase absoluto. Noutros aplicando o método conseguem-se aproximações  – likely future directions – que, mais ou menos plausíveis, acrescentam sempre conhecimento e são sempre uma vantagem competitiva para quem as conhece antes dos outros.

Documentos

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Os documentos integrais do JN e do Expresso podem ser consultados na íntegra clicando nos links.

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