O que vem às redes (sociais)

As redes sociais são fascinantes. Essas “fidalgas” chegam a ter mais afeto que os nossos animais de estimação. Já para não falar do resto das pessoas lá de casa. Manos, Manas, Pais, Avós estão sempre em segundo lugar. As redes são as nossas melhores amigas.

Vamos com elas, plantadas de semeadura nos nossos telefones, a toda a parte. À casa de banho, ao ginásio, ao cinema, ao restaurante, à casa dos amigos, ao consultório do doutor, a velórios e futebóis. É a primeira coisa que fazemos quando nos levantamos da cama e a última antes de dormir.

Face like, Twit cool, pinterestame, snapchatame, linkame, instagramame, partilha-me em toda a parte como se não houvesse amanhã. Wtf!

Não há nenhuma coisa, empresa ou pessoa que não tenha um perfil ou dois, uma página ou duas, uma timeline pelo menos, um álbum de capa e fotografias do telemóvel. Todos estamos na rede a partilhar o vida com o resto dos transeuntes digitais. A gerir comunidades. A angariar amigos. A aumentar a rede. A ser globais. Ahhhh!

As redes têm todos os ingredientes necessários para uma boa relação: movimento, disponibilidade, alegria, obediência (é verdade, podemos mesmo desligar aquilo se quisermos) veneração, patriotismo, amizade, companheirismo; um desfilar de qualidades ótimas num rol sem fim.

Escolher uma rede para viver é sinal de inteligência prática. De elementar bom senso. Namorar com o facebook é um regalo e um descanso. As conversas são intermináveis e sem maus hálitos. Há variedade de parceiros e sentidos de humor. E a multiplicidade de assuntos? Imensa! Por isso não conseguimos desligar. Porque é lá que a vida está sempre a dar.

E dá eventos, geografias, dá para ires mesmo sem ir, prometer sempre e sempre faltar, e sem ninguém te culpar, sem ninguém reparar, e sem dizeres palavra e sem um termo agreste.

É a sustentável leveza do ser.

Nem Milan Kundera, a explorar em profundidade a incoerência das ações do ser humano, baseadas nas suas motivações mais obscuras, no entanto verdadeiras; consegue melhores resultados de um twitt cínico às 2 das manhã.

Nenhuma explicação para o não sentido que a vida de cada um tem, independentemente das circunstâncias exteriores em que vive, condições para competir com uma foto íntima no instagram.

O amor libertino entre Tomás e Teresa, mesmo que sejam uma mulher que trai por prazer e um homem que nunca consegue materializar os ideais que persegue, não tem metade da força que uma troca de “posts” no face.

Será que conhecer as pessoas de carne e osso ou ir aos sítios de verdade, andando e atravessando ruas e portas de asfalto e madeira, é tão bom como ficar no lusco fisco digital vivendo a vida louca na ponta chata do polegar?

Ainda podemos comparar. Hoje podemos. Mas será que amanhã também?

Muitos jovens já têm os seus melhores amigos nas redes, nunca os viram nunca lhes sentiram a força de um abraço ou a carícia de um beijo. A distância que diminui entre eles à força de viver nas redes é a mesma que se estreita na ausência dos sentidos.

Não sei sé é mau ou se é bom. Para mim é mau que sou do tempo onde para jogar à bola era preciso ter uma.

Mas o que é certo, é que vai ser assim .

publicado originalmente do Diário de Coimbra dia 20 de Janeiro 2015