Obrigado pelo lume

Livro de Areia  disputa com a Biblioteca de Babel e os fragmentos narrativos  de Valery a impaciência matemática deste texto.

Foi numa esplanada de junho, num sol desmaiado perto do solstício que te encontrei. Afinal a Vénus de Milo podia mesmo ser tão bela como o Binómio de Newton e não havia ali mais ninguém que pudesse dar conta disso.

Avisaste que estarias disfarçada de colegial  e que seres doutora era uma  apenas uma circunstância, douta, dialética, diática, que quer primeiro dizer de dois, e depois de nós.

Eu  olhava as palavras que dizias, e dizia olha; e tu corrigias-me os sentidos como se as palavras fossem sujeitos libertinos. Vê! Repara! Liberdade é poder escolher, acrescentavas, repetias, rumoravas, olhando-me de frente e de soslaio ao mesmo tempo.

Mas afinal quantas palavras cabem entre o princípio e o fim? É realmente infinito o seu número? Ou é apenas por isso que é numerável? Mesmo que não se possa dizer.

Esta questão prende-se exatamente com o dia de hoje. Este, em que uma data se faz pedra de entre todas as outras, marcando, cinzelando, indelevelmente o dia em que nasceste. Esse dia claro onde eu, por capricho ou erro, nunca se poderá demonstrar, escolhi não te ir ver nascer.

Havia de ser por engano ou por qualquer outro motivo mensurável que agora, muitos anos depois, como antes outro, frente a um pelotão de fuzilamento em Macondo, escolhi Aleph para te demonstrar que é realmente infinito o que nos une.

A distância e o tempo não só conceitos da física, atiravas. Eu acho que são bem mais dados ao plano sensorial. O tempo, por exemplo, só existe se te lembrares como o passaste e a distância, às vezes, é maior quanto mais estiveres perto.

Deito um 8, chamo-lhe infinito. Invoco os deuses e adormeço. Nunca há metafísica bastante por não pensar em nada. Nunca há tempo que sobre nem madrugadas que cheguem.

Aponto ao céu e espelho a terra. No plano oblíquo do desenho mágico suporto a Lotaria da Babilónia, a Doutrina dos Ciclos e o “Argumentum ornithologicum”, esse mesmo, o que há-de descansar numa das páginas da tua fila de espera, à procura de redenção e de um caminho, sem que se possa, ainda, dizer o que o espera.

O que eu gosto mesmo de ver são as estrelas em sítios sem luz. o céu de Monsaraz, faz-me sempre lembrar o Galileu e a coragem de quem defende ideais mais que ideias.

Mas espera, espera, não celebres já, não sopres as velas, dá-me mais um minuto. Prometo, sem lhe aumentar um segundo, demonstrar-te nele, que nos conhecemos desde o princípio dos tempos e que é apenas uma ilusão que tudo é recente. Talvez te tenha ido ver nascer, só não to digo.

Também acredito que é uma pena a filosofia estar tão esquecida… fosse ela mais lembrada e o mundo seria um lugar melhor. O horizonte é apenas uma boa vista que nunca se sabe onde acaba.

Era já assim desde o princípio dos tempos, e posso demonstrá-lo, mesmo que não seja verdade, nem isso importa, porque a verdade nunca é maior que o conjunto das partes que a revelam.

Não posso acreditar que a história dessa noite tivesse sido um simulacro. Não por que aconteçam coisas estranhas, inumeráveis. Nem porque choras na presença do passado mais querido, riso erguido, na nossa mesa elipse, tão fina quanto imperial, a tua mais querida esfinge Física do Egipto.

Ela foi apenas o princípio, a capa, a portada, o ponto de partida que definia o capítulo seguinte, o da chegada. De permeio, todas as árvores do mundo, passeio de comboio, Zenão e Eleias, “Alentejo seen from the train”. E o Persa Zoroastro.

Sei que sabes contar até dez com tanta certeza como que percebes o amor quando te encontra.

É porque o todo nunca é maior do que qualquer das partes, que é infinito o nosso tempo.

Assim to digo, em diagonais de Cantor e almejando o universo inteiro, que fomos feitos um para o outro. Assim te exorto a salvar Veneza.  Não porque sem nós esteja perdida, mas porque sem nós não pode sequer existir.

Sabes o que te digo? Obrigado pelo lume.