Oitenta por cento é sorte!

Quando fiz o PADE na AESE (2010, curso XXXV), numa das sessões, já não lembro bem qual, o professor Raul Diniz disse uma coisa desconcertante: na vida, oitenta por cento de tudo é sorte!

Quase não queria acreditar. Afinal a AESE é uma escola profundamente racional, religiosa, ética e fundada nos mais estritos princípios de trabalho e competência. Custou-me a compreender como é que as palavras do professor se adequavam a esta missão tão racionalmente descrita. Raul Diniz, atualmente presidente emérito da AESE e professor de Comportamento Humano na Organização e Ética, deixava-me desconcertado.

Perguntei. Mas afinal como é isso? e a resposta veio pronta e sem desassombro:

José Manuel – não importa o que façamos – e temos de fazer as coisas sempre bem e o melhor que soubermos, temos de ser sempre justos e honrados, os melhores trabalhadores, os melhores amigos dos nossos amigos, os mais fieis aos nossos compromissos e capazes de todos os sacrifícios – mas mesmo assim – fazendo tudo isto, no fim de contas, oitenta por cento é sorte. E acrescentou – nunca se sabe, mesmo depois de fazermos tudo bem, quando nos chega à caixa do correio uma carta a dizer o que não queremos ouvir.

Talvez o professor Raul Diniz tivesse recebido essa carta, ou alguém que ele estimasse muito. Lembro-me que foi no final de 2010 que o professor Ernâni Lopes, grande amigo da AESE, faleceu de doença prolongada, poucos meses depois de ter partilhado connosco em aula a sua teoria sobre uma década perdida (2000-2010) . E aquilo deixou-me a pensar.

Lembrei-me desta história a propósito das muitas, e boas, notícias sobre o desempenho da nossa economia. Há 17 anos que o PIB não subia tanto, o desemprego a cair, o crescimento no primeiro trimestre supera todas as previsões, a confiança dos consumidores em níveis históricos. Reina na nação um sentimento geral de otimismo. E isto é bom.

Mas amanhã, quando se abrirem as garrafas de champanhe para celebrar a decisão da Europa de nos tirar do procedimento por défice excessivo, eu vou lembrar-me das palavras sábias do professor. Peço também ao Governo que as recorde.