Os anos 80

Em 1980 não havia auto-estradas, a televisão era a preto e branco, o tempo chegava para tudo e o Sporting foi campeão nacional . Mesmo para quem morava na província, como era o meu caso, ir a Espanha foi, durante muito tempo, uma aventura que precisava de passaporte. Os tricórnios da guardia civil ainda hoje povoam o meu imaginário e foram, anos a fio, os representantes de todo o mundo desconhecido.
O carro da nossa família era azul bebé (hoje não consigo imaginar ninguém com um carro dessa cor), marca Austin, matrícula, DC-52-93. Tinha 4 portas e um motor 1100. A gasolina custava 6 escudos e 10 centavos. Não sei quanto é que isso dá em euros.
Eu e o meu irmão andávamos para a escola. Era perto. Comíamos sempre em casa. A minha mãe fazia o almoço e tratava de nós, era a profissão dela. O meu pai era professor. No 8º ano foi o meu professor. Chamava-lhe pai na aula mas punha o braço no ar para falar. Nunca me passou pela cabeça ir ver o ponto (então o nome do teste) enquanto ele estava a dormir. Acho que agora é proibido dar aulas aos filhos. A maior nota que tive com ele foi 4. Eu tinha sempre 5 a quase tudo.
A Paula foi a minha primeira namorada. Foi na primavera. Aos 16 anos nunca tinha feito a barba e ela disse-me (era mais velha) que aquela penugem por cima do lábio superior lhe fazia cócegas. Fiz a barba com a máquina elétrica philipshave do meu pai na casa de banho pequena da casa. Ele explicou-me como se usava. Fiquei com a pele vermelha.
“Nos anos 80 Brincava da rua com o meu irmão, íamos jogar à bola nas escolas da cidade, íamos a pé, saltávamos o muro. Não sabíamos o que eram graphitis, só esparguetes.”
Aos fins de semana jogávamos futebol no Montalvão, num campo de futebol pelado dos militares onde esfolava sempre os joelhos – sangrar dos joelhos era uma coisa normal. Jogava à baliza porque não gostava de correr.
Fazia muito calor no verão e muito frio no inverno. Os ares condicionados eram FNAC o que queria dizer “Fábrica Nacional de Ares Condicionados”. Íamos o mês inteiro de Agosto para a praia em São Martinho do Porto.
Não fomos aos Jogos Olímpicos nesse ano por causa do boicote dos americanos à União Soviética e, em vez de o Carlos Lopes a ganhar medalhas, víamos o Dallas, a Balada de Hill Street, o Espaço 1999, o Dancing days e as outras novelas depois da Gabriela Gravo e Canela. [bctt tweet=”Era tão bonita a Sónia Braga com aquela pele morena a preto e branco”].
Os telefones tinham disco e estavam agarrados à parede. A perguntara era “quem é” em vez de “onde está”. O meu número era o 1322. Havia o Montepio, a Caixa, o Sotto Mayor, o Fonsecas & Burnay e o Espírito Santo. Tudo nomes de gente, completos, portugueses e de família.
Havia uma palavra em português para tudo. Roubar era feio, mentir também. Ficava-se de castigo por causa disso.
Ainda assim tenho uma convicta esperança no futuro que, tenho de confessar, se acentuou muito desde que o meu filho também joga à baliza.