Os políticos deviam ganhar mais

Os ordenados dos políticos são uma causa difícil.

Não é por acaso que quase ninguém, a começar por sucessivos líderes partidários, defende que os políticos devem ganhar bem. E bem não significa ganhar bem em relação à maioria dos portugueses – isso já acontece e, se fosse isso, não havia problema.

Ganhar bem, na aceção que interessa para o caso, é receber um ordenado típico, não de ricos, mas de classe alta. E isso os políticos portugueses, dos autarcas aos ministros, passando pelos deputados, obviamente não recebem.

Sobre isto há duas posições antagónicas. Uma – que se funda na hipocrisia típica dos países católicos do sul – é a de Cavaco Silva: acha muito bem o ordenado que a função lhe atribui – 6523 euros mensais brutos, mais 2962 euros de ajudas de custo – mas prescinde dele, optando por receber a sua pensão de professor catedrático e de reformado do Banco de Portugal, num total de mais de dez mil euros mensais.

O ordenado de presidente da República é importante, não só para o cargo, mas sobretudo porque é o indexante dos salários dos restantes cargos políticos. Isso não impediu, no entanto, esta semana que vários políticos com responsabilidades tenham declarado ao Diário de Notícias que não veem necessidade de o rever ou que se trata de uma coisa sobre a qual nunca tinham pensado… Sempre a hipocrisia.

[bctt tweet=”O ordenado de presidente da República é importante, não só para o cargo, mas sobretudo porque é o indexante dos salários dos restantes cargos políticos.”]

Felizmente há (ou havia) outro tipo de políticos. António Almeida Santos, que nos deixou esta semana, era um deles. Numa entrevista dada em 2009 – e que a Antena 1 voltou a passar no dia seguinte ao da sua morte – Almeida Santos, com aquela bonomia senatorial que o caraterizava, declarava-se “infelizmente o único político que defende que os políticos ganham mal”.

As razões de Almeida Santos eram as da qualidade da classe política. As da qualidade intelectual, as da qualidade executiva, as da qualidade legislativa. Dizia ele que era um erro – um erro que prejudica gravemente os interesses do povo – que um gestor de reconhecida competência seja convidado para um cargo político e tenha entre o seu vencimento na empresa e o ordenado de, por exemplo, ministro, diferenças de dez, quinze, vinte vezes menos.

Almeida Santos falava desinteressadamente. A política naturalmente ajudou ao seu sucesso nos negócios, mas ele nunca dependeu dos ordenados que recebeu nos cargos públicos. O seu ponto era: não precisamos de tantos políticos (nomeadamente deputados), mas precisamos de melhores políticos. E temos de lhes pagar o suficiente para que o ordenado não seja um obstáculo intransponível à entrada dessas pessoas na política.

 


Publicado originalmente no Jornal de Notícias dia 24 de Janeiro 2015


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